terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ROLEZINHOS REFLETEM DESCASO DOS GOVERNOS COM A JUVENTUDE.
por Milton Saldanha*

Nos anos 1960 rendeu até filmes. Era a “juventude transviada”, jovens em jeans e jaquetas de couro que rompiam com as regras formais do bom comportamento. A classe média carioca da Zona Sul, quando o Rio de Janeiro era o centro das atenções nacionais, produziu os “play boys”, que se deslocavam em grupos usando Lambrettas, aquela pequena moto aberta na parte frontal. Tive uma delas por vários anos, mas numa fase em que a imagem da Lambretta não estava mais associada aos tais “play boys”. Era apenas um gostoso meio de transporte e passeio.

Hoje, quando os shoppings substituem as antigas praças centrais das cidades, a ponto de usarem esse termo para a área de alimentação (aquilo pode ser tudo, menos uma praça), é para lá que convergem as atenções da juventude, atraída por seu natural instinto gregário. Shopping não é só lugar de compras, gastronomia e cinemas. É também local de paquera. Nós, das gerações mais antigas, nem percebemos isso.

O novo fenômeno dos rolezinhos apenas reflete a necessidade jovem de extravasar o excesso de energia que eles carregam, associada a necessidade de auto-afirmação do adolescente. Todas as pessoas normais passam, ou passaram, por isso. Apenas os chatos nunca foram jovens e transgressores.

Nem por isso se pode permitir, claro, que destruam tudo pela frente. Nem que se matem em brigas de rua. Só que a habitual  truculência policial não me parece o melhor caminho para lidar com o problema.

Se a juventude fosse estimulada, desde a infância, a dedicar-se aos esportes, suas energias e inquietude seriam canalizadas para atividades menos predatórias. É aqui que entra a culpa dos sucessivos governos municipais e estaduais, de todos os partidos, que não estimulam os esportes. Quantos bairros contam com praças esportivas de acesso fácil e gratuito? Que promovam campeonatos? Que fim levou o futebol de várzea, que estimulava a organização de times de rua? Caros, se não existem campos para isso – tudo foi invadido pela maldita especulação imobiliária – como poderia a várzea ter sobrevivido?

Parte do dinheiro das loterias, dizem, é destinado aos esportes. Só se for para irrigar os cofres dessas entidades corruptas dominadas por cartolas. Eu não vejo um centavo ser empregado em proveito direto da população. E não basta só abrir espaços, é preciso também organizá-los, com agenda, treinadores, e todo o material indispensável, de bolas a instrumentos de pronto-socorro. A prática de esportes demanda cursos, e também desenvolvimento de consciência social, que leva ao respeito e consideração pelos outros. Tudo isso é didático, altamente educativo, desenvolvendo não apenas o físico, mas também mentes sadias.

Se os jovens que estão metidos nos rolezinhos tivessem acesso aos esportes, neste momento estariam mais preocupados em buscar conquistas edificantes. Nas quadras esportivas mostrariam do que são capazes. Lá deveria ser o lugar inclusive para suas conquistas amorosas.

É uma lástima que tenhamos governos tão cegos e incompetentes, completamente distanciados da realidade e da população.

Quanto aos shoppings, que só pensam em faturamento, deveriam começar a pensar em dar algo em troca à sociedade. Um bom começo seria criar praças de esportes populares no seu entorno.  

* Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento).

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