sexta-feira, 18 de julho de 2014

A MORTE DE JOÃO UBALDO RIBEIRO.
por Milton Machado

A primeira vez que ouvi o nome João Ubaldo Ribeiro foi em 1972, quando visitei o escritor Érico Verissimo, em sua gostosa casa, no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. Eu era repórter do jornal “Folha da Manhã” e precisava de um comentário do Érico sobre outro livro, “Cogumelos de Outono”, de Gladstone O. Mársico, isso mesmo, com esse nome, da cidade de Erechim, uma das pessoas mais simpáticas que conheci em minha vida, dotado de uma verve humorística incrível. Você lia o livro, da Editora Movimento, um tremendo tijolo, imenso, dando gargalhadas das cenas hilárias que ele descrevia. Certo dia recebi a inacreditável notícia que ele cometera suicídio, atirando-se do prédio onde morava. Foi um choque tremendo.

Era uma noite fria e fiquei duas horas conversando com Érico e sua mulher, Mafalda, num porão habitável muito aconchegante, com música clássica de fundo, tocava Mozart. Eles sentavam em cadeiras de balanço e Mafalda tricotava durante a conversa, mais ouvindo do que falando. Estava lá também seu editor, o Bertazo, da antiga Editora Globo, tradicional e famosa no Sul. Bastaram aquelas duas horas para eu me encantar com a figura de Érico Veríssimo, um ser humano de uma integridade moral absoluta. 

No meio da conversa, ele citou o livro de um escritor então ainda desconhecido: “Sargento Getúlio”, do baiano João Ubaldo Ribeiro. Érico me contou que tinha recebido o livro, de cortesia, começou a ler por curiosidade e não largou mais, descobrindo ali uma preciosidade da literatura brasileira. Estava sob o impacto da obra e recomendou-me a leitura. Já no dia seguinte corri à Livraria do Globo e comprei. Ao escrever duas páginas na “Folha da Manhã” sobre o “Cogumelos de Outono”, e sobre a figura admirável do seu autor, aproveitei para incluir o comentário de Érico sobre “Sargento Getúlio”, estimulando a boa leitura. O livro é um marco. Tempos depois, começou o sucesso de João Ubaldo, ganhando nome nacional. O livro depois virou filme, com Lima Duarte fazendo o papel do sargento.

Por esse livro passei a considerar João Ubaldo um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos. Mas, curiosamente, nunca gostei dele como cronista, achava pesado, e a crônica tem que ser leve. São gêneros completamente diferentes. Na minha juventude devorei as crônicas de Rubem Braga, que era imbatível no gênero, nunca mais haverá outro igual. Foi o mestre de todos da minha geração que apreciavam as letras. Mas a aventura de fazer um romance é muito mais densa, além de perigosa. Porque a crônica, curta, variada e freqüente, perecível como uma maçã, não precisa ser genial todos os dias. Nem dá. Mas o romance é único e precisa, senão é melhor nem existir.  

João Ubaldo nos deixa esse legado e outras obras admiráveis, onde a questão social é o centro de tudo. Sua morte, aos 73 anos, tem um sentido de perda profunda para a literatura brasileira e para todos que pregam a decência e a justiça. 


Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento) 

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