segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

LEMBRANÇAS!!! Por chicolelis*

"Um orgulho ter me encontrado com Vinicius de Moraes e Toquinho"

Penso que, quando chegamos aos 80, um monte de lembranças começa a chegar à nossa mente. Eu não sou diferente, inclusive nas dores e nas idas aos médicos que nos mandam para laboratórios onde nos furam, nos fazem entrar em máquinas barulhentas e desconfortáveis. Tudo para “especular” sobre a nossa saúde.

Bem, voltando às lembranças, conto apenas aquelas que mais marcaram minha infância, juventude e idade adulta. Entre elas a mais marcante está relacionada às minhas idas ao auditório da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, onde assisti, algumas vezes, o programa “Cesar de Alencar”, sucesso nacional da emissora.

Eu morava no Grajaú, bairro carioca e ia para  a rádio Nacional, na Zona Portuário do Rio, nas lotações que se usava no Rio nos anos 50. Era uma viagem temerosa, pois os motoristas eram “alucinados” fechando outros veículos, “furando”  farol (não lembro que se chama no Rio).

E ali vi, e ouvi, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Marlene, João Dias, Francisco Carlos e, o então Rei da Voz, Francisco Alves. Ele cantava uma música que fez sucesso com a crianças (eu, com 6 ou 7 anos, era seu fã também): Criança feliz/feliz a cantar/alegre embalar seu sonho infantil/ó meu bom Jesus, que a todos conduz/ olhai as crianças do nosso Brasil.

Quando ele morreu, em 1952 no seu potente Buick 1950, preto, que ele mesmo dirigia, pela Via Dutra, ao bater em um caminhão. Nós, as crianças do Brasil, choramos sua morte, quando ouvimos  a notícia pelo rádio (eu já morava em Ponte Nova, MG), Diz a lenda, que o disco encontrado na “vitrola” da sua casa, no Rio de Janeiro, era “Adeus”: Adeus, adeus, adeus/cinco letras que choram/num sorriso de dor.... é como o fim de uma estrada....

Até chegar à pré adolescência (naquela época não existia esse termo) foram muitas viagens no Trem de Prata ou pela Cometa (entre Rio e São Paulo), sem a presença de celebridades (outro termo não usado naqueles tempos). Até que Cláudia Cardinale, minha paixão juvenil/adulta veio ao Brasil para filmar “Uma Rosa para Todos”, em 1965. E resolveram fazer um concurso para escolher o brasileiro que iria contracenar com ela. Bobo, acreditei naquela jogada de marketing. E lá fui eu, ao Rio, a bordo do trem de prata, levando minha fotos, entregues após enfrentar uma enorme fila, na porta do Copacabana Palace, até hoje imbatível no seu carisma, na sua majestade. Nunca soube o destino das minhas fotos. (Lixo, com certeza!).

Após a frustração com a La Cardinale, vieram passagens com muitas celebridades das épocas, sem lembrar aqui a cronologia dos acontecimentos. Com Rita Lee o encontro relâmpago foi em um bar ao lado da Record, na avenida Brigadeiros Luiz Antônio, SP. Ela, então nos Mutantes, ainda não era a maravilhosamente famosa Rita que conheceríamos anos depois. Mas já era linda com seus lindos olhos verdes Depois de enfrentar a Via Anchieta e a subida da rua Tabatingüera, SP, (que, apesar de ser curta, sua inclinação não permitia ao ônibus do Expresso Brasileiro passar dos 5 ou 8 km/h).

Na mesma São Paulo, que frequentava regularmente, sempre enfrentando a Tabatingüera, a moça ao mau lado, no balcão da loja, deixou cair um papel. Sem olhar para ela, abaixei-me para pegá-lo. E na volta, fui percorrendo aquele corpo, coberto por um longo vestido azul claro que parecia não acabar. Finalmente o rosto, aquela que foi uma das minhas grandes paixões: Dina Sfat que, simpática, gratificou-me com um a belo sorriso. Ganhei o dia!

Os joelhos da Bossa Nova

Um casal amigo morava no Rio, para onde viajei, a bordo de um Cometa, em Ipanema. A varanda do “apê” dava para um pátio fechado, que servia a vários prédios no quarteirão. E, todos os dias, no final da tarde, Nara Leão (uma das maiores responsáveis pelo movimento da Bossa Nova) era a  moradora em um desses edifícios. E todos os dias ficava com sua filha sentada na grama do pátio. E a vizinhança ia para janelas e varandas ver a moça que tinha aqueles, na época, considerados os mais belos joelhos da MPB.

Com Elis Regina, considerada a melhor cantora brasileira de todos os tempos, meu encontro aconteceu em Santos, de maneira muito desagradável, por ambos os lados.  Repórter de A Tribuna (jornal centenário que teve a primeira mulher secretária do Brasil, em 1990, minha querida amiga Miriam Guedes Azevedo), em Santos, fui escalado para cobrir o show que Elis Regina fez na cidade (não lembro a data, mas foi entre 1971 e 1973).

E lá fui eu, a bordo da Rural Willys do jornal, dirigida pelo Arnaldo, irmão Américo, chefe dos motoristas, e pelo fotógrafo  o elegante Paco (Francisco Herrera, que tinha mais dois irmão clicando no jornal, o Zézinho  e o Raphael). O show era no Clube de Regatas Santista, (que hoje dá lugar às  obras de mais um arranha céu, na Ponta da Praia). Procurei pelo empresário da cantora e ele pediu que esperasse alguns minutos. A Elis estava ao telefone.

Ouvia alguns gritos que ela dava,  mas sem entender direito o que dizia. Quando o empresário abriu a porta, pedindo que eu entrasse, apresentou-me como jornalista do “jornal local”. Foi o quanto bastou para a  “Pimentinha” (apelido dela) “soltasse os cachorros” para cima de mim. “Jornalista é tudo igual, tudo *****, canalhas mentirosos, criadores de casos, seus *****. Olhei bem para ela e falei no meu tom de voz (gritando) vá à *****. Virei de costas e fui embora. Assisti ao show e no dia seguinte, ignorando o nosso encontro frustrado, alegando atraso da chegada da artista,  escrevi sobre o maravilhoso show que assistira.

Outro acontecimento em Santos, este prazeroso, foi meu encontro com Vinicius de Moraes e Toquinho, na porta da Faculdade de Medicina de Santos, da Fundação Lusíada, onde minha filha formou-se. Cheguei a bordo de outra Rural Willys, azul e branca, de A Tribuna, levada pelo Américo (o irmão do Arnaldo) o fotógrafo Arnaldo Giaxa (este não tinha irmão fotógrafo  na casa)

Daí para um  carro e dele descem os dois músicos. Apresentei-me e eles perguntaram onde poderiam tomar alguma coisa ali perto. Perto, só uma padaria.

- Vamos lá! Disse o Poetinha.

Entramos sentamo-nos à uma mesa. Alguém nos atendeu e Toquinho perguntou qual uísque eles tinham. Old Eight foi a resposta. Quando trouxeram a garrafa com os copos e gelo. Vinícius pediu Club Soda para misturar com a bebida. Quando a garrafa ia ser retirada, o Poetinha pediu a deixassem ali. Havia cerca de ¾ nela. E, na quase uma hora que ficamos ali, na padaria, os dois “entornaram” o seu conteúdo.  Me orgulho deste encontro.

Também encontrei com Paulinho da Viola, um dos nossos maiores sambistas, Jaques Morelenbaum, violoncelista e arranjador (quando ainda tinha cabelos), Milton Nascimento, com quem tive um prazeroso almoço no Rubaiyat, na alameda Santos. Uma boa noitada aconteceu no bar do Casa Grande Hotel, no Guarujá, SP, quando do lançamento da Toyota Fielder. Uma longa conversa do Roberto Menescal (um dos maiores músicos desta terra descoberta por Cabral), onde contou muitos “causos” da nossa Bossa Nova.

Grandes noitadas com Cesar Camargo Mariano (grande maestro, pianista arranjador, que me deu o prazer de me incluir no seu grupo de amigos. Cesar me ensinou algumas maneiras diferentes de tomar Jack Daniel’s, além do tradicional “shot”. Um bom companheiro, que está morando longe e de quem tenho muita saudade.

Tem muito mais coisa para falar sobre celebridades, como a felicidades que tive de conhecer o Bird Clemente, meu ídolo maior  (junto com a Nelson Piquet) que me fazia viajar de Santos até Interlagos, durante mais de cinco horas, só para vê-lo,  entrar de lado nas curvas do autódromo. Acho que minha admiração por ele foi quando descobri que, com o eu, ele usava óculos. E pilotava com eles  aquele maravilhoso Willys Interlagos.

Basta por hoje.

* chicolelis   -  Jornalista com passagens pelos jornais A Tribuna (Santos), O Globo e Diário do Comércio. Foi assessor de Imprensa da Ford, Goodyear e, durante 18 anos gerenciou o Departamento de Imprensa da General Motors do Brasil. Fale com o Chico: chicolelis@gmail.com.

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