quarta-feira, 29 de julho de 2026

QUEM COM FERRO FERE... Por Linoel Dias*

Imagem IA Gemini

O antigo provérbio — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — atravessa gerações não apenas como um ditado popular, mas como um princípio que ecoa nas leis morais, espirituais e até sociais que regem a existência humana. Essa ideia se aproxima da chamada “Lei da Semeadura” ou a "Lei do Retorno": tudo aquilo que o homem planta, cedo ou tarde, colherá. Não se trata de vingança divina, mas de consequência natural — uma engrenagem invisível que conecta atitudes e resultados.

A vida, em sua essência, é um campo fértil. Nele, lançamos diariamente sementes por meio de palavras, decisões e comportamentos. Semeamos gestos de paz ou de conflito, de respeito ou de desprezo, de justiça ou de conveniência. E, como ensina a sabedoria antiga, a colheita nunca falha — ainda que o tempo entre plantar e colher seja, por vezes, longo e silencioso.

No cenário político, essa realidade também se manifesta. Relações diplomáticas, gestos institucionais e decisões públicas não existem no vazio; eles reverberam, constroem percepções e, inevitavelmente, produzem efeitos. Episódios recentes envolvendo líderes do Brasil e Argentina mostram como atitudes, mesmo quando justificadas sob determinadas óticas, podem gerar reações e interpretações diversas, afetando o delicado equilíbrio das relações entre nações.

O presidente brasileiro foi a Argentina em julho de 2025 visitar a ex-presidente presa em seu domicílio, Cristina Kischner, e agora em julho de 2026 Milei, presidente argentino veio ao Brasil tentando ver Bolsonaro e acabou discursando na Convenção do PL. Ambas as visitas criaram atritos que muito lembram "quem com ferro fere, com ferro será ferido".

Quando ações são guiadas mais por alinhamentos ideológicos do que por prudência diplomática, o risco de ruídos aumenta. E o que hoje é interpretado como solidariedade e visita humanitária, amanhã pode ser visto como interferência; o que hoje parece coerente, amanhã pode ser percebido como contradição. Assim, o ciclo se fecha — não como punição, mas como reflexo.

Sob uma perspectiva filosófica, isso nos leva a uma reflexão mais ampla: a responsabilidade não é apenas individual, mas também coletiva. Líderes políticos e religiosos, especialmente, carregam o peso simbólico de suas ações, pois representam não apenas a si mesmos, mas uma nação ou uma comunidade. Cada gesto tem alcance ampliado, cada palavra ecoa além das fronteiras.

Já no campo espiritual, a lição é ainda mais profunda. O Cristo ensinou sobre amor, justiça e coerência — não apenas no discurso, mas na prática. A verdadeira autoridade moral nasce da harmonia entre aquilo que se fala e aquilo que se vive. Quando há desalinhamento, a própria realidade se encarrega de revelar.

Portanto, “quem com ferro fere” não é apenas uma advertência — é um convite à consciência. Convida-nos a agir com sabedoria, a medir consequências e a cultivar aquilo que desejamos colher. Se queremos paz, precisamos semear diálogo. Se desejamos respeito, devemos praticá-lo. Se ansiamos por justiça, é preciso começar por ela.

E atenção: a vida não cobra — ela apenas devolve.

E talvez aí resida a lição para todos, principalmente para líderes políticos e religiosos: antes de seus discursos e prédicas, nas bancadas e púlpitos, perguntarem— que tipo de colheita estou preparando?

* Linoel Dias é jornalista, assessor de imprensa e
 colunista do Coisas de Agora

Um comentário:

Anônimo disse...

Seria tão bom,se nosso políticos e líderes religiosos pensassem antes de abrir a boca e ver o que estão semeando.Podiam parar para refletir um pouco e tomarem conciencia do que fazem