sábado, 19 de setembro de 2026

O BRASIL DESCEU A LADEIRA. Por Linoel Dias*

Imagem IA ChatGPT

Há momentos em que uma nação precisa parar, respirar fundo e perguntar: para onde estamos indo?

O Brasil vive mais um desses momentos.

Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte de Justiça do País protagonizou, em sessão pública, um episódio deprimente que expôs ao cidadão comum algo que deveria permanecer muito distante dos tribunais: o confronto verbal, a exaltação e a profunda divergência entre aqueles que deveriam representar, acima de tudo, a serenidade, a imparcialidade e o equilíbrio da Justiça.

A sessão de 15 de setembro de 2026, que tratava inicialmente de uma questão processual envolvendo as petições relacionadas aos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, terminou suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino. O mérito das questões não chegou a ser examinado naquela sessão.

Mas o que ficou para o cidadão brasileiro não foi apenas o aspecto jurídico do julgamento.

Ficou a cena. Uma vergonha nada republicana. Ficaram as palavras. Ficaram os embates.

Ficou a sensação incômoda de que, dentro de uma instituição concebida para ser símbolo de equilíbrio e autoridade constitucional, também existem conflitos, vaidades, divergências e limites que precisam ser administrados.

E quando os conflitos chegam ao plenário de uma Suprema Corte, não é apenas a imagem dos ministros que está em jogo: é a confiança da sociedade na própria Justiça.

Algumas declarações atribuídas ao ministro Gilmar Mendes, inclusive a comparação envolvendo ética e máfia, ganharam repercussão pública. Independente do contexto e da interpretação de cada frase, expressões dessa natureza, quando pronunciadas por integrantes da mais alta Corte do País, provocam perplexidade e alimentam o debate sobre os limites da linguagem institucional.

É preciso enfatizar, que discordar não é destruir; questionar não é desrespeitar; e criticar o poder não significa atacar a Justiça.

Muito pelo contrário. Uma democracia saudável precisa permitir que o cidadão olhe para seus Poderes e diga: isso precisa ser melhor.

A Constituição não foi escrita para proteger autoridades de críticas. Foi escrita para limitar o poder e proteger a sociedade.

E talvez seja este, o ponto mais delicado desta história.

Quem veste uma toga não deixa de ser humano. Continua sujeito às emoções, às divergências e às limitações próprias de qualquer pessoa. Mas a toga representa uma responsabilidade que ultrapassa o indivíduo. Ela representa o Estado, a Justiça e, sobretudo, a confiança de milhões de brasileiros.

Por isso, quando os homens que deveriam guardar a Constituição entram em confronto público, a sociedade tem o direito de se preocupar.

Não porque a divergência seja proibida.

Mas porque a grandeza da Justiça está justamente na capacidade de transformar divergências em decisões serenas, fundamentadas e respeitosas.

Há uma frase frequentemente atribuída ao filósofo alemão Georg Lichtenberg que merece reflexão: “Quando os que governam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito.” Nenhuma autoridade sobrevive indefinidamente, quando perde a confiança daqueles que deveria servir.

Eis o grande perigo: o brasileiro já está cansado. Cansado de escândalos, de disputas de poder. Cansado de discursos que parecem falar mais alto que os princípios. Cansado de assistir a instituições que deveriam oferecer segurança transmitirem, por vezes, insegurança.

Cansado de ver o País discutir quem pode mais, quando deveria discutir quem deve mais à sociedade.

O Brasil precisa de instituições que vençam a injustiça, a corrupção, a impunidade, a desigualdade e a desesperança.

Não precisamos de homens e mulheres públicos preocupados apenas com sua própria autoridade. Precisamos de servidores públicos conscientes de que todo poder emana do povo e deve retornar ao povo em forma de justiça, respeito, liberdade e responsabilidade.

A Palavra nos lembra: “A justiça exalta as nações, mas o pecado é o opróbrio dos povos.” — Provérbios 14:34

Uma nação não se mede apenas pelo tamanho de sua economia, pela quantidade de seus prédios, pelo poder de suas instituições ou pela tecnologia que domina.

Uma nação se mede também pela qualidade moral de suas instituições, pela confiança que seus cidadãos depositam nelas e pelo respeito que os poderosos demonstram diante daqueles que não possuem poder algum.

Quando a Justiça perde a serenidade, a sociedade perde a referência.

Quando os responsáveis pela guarda da Constituição parecem esquecer a função que exercem, o cidadão começa a perguntar quem guarda os próprios guardiões.

Então, a pergunta sem ódio, sem partidarismo e sem medo: Quem vigia o poder, quando o poder parece não aceitar ser questionado?

Não se trata de defender este ou aquele ministro. Não se trata de transformar André Mendonça, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes ou qualquer outro integrante do Judiciário em herói ou vilão.

Trata-se de defender a instituição e dar responsabilidade àqueles que a representam.

O Brasil não pode descer uma ladeira institucional na qual o respeito seja substituído pelo confronto, a prudência pela exaltação e a Justiça pela disputa de protagonismo.

Se descemos a ladeira, precisamos ter coragem para frear. E frear significa recuperar o equilíbrio.

Significa lembrar que poder sem limites transforma-se em abuso; autoridade sem humildade transforma-se em arrogância; Justiça sem serenidade transforma-se em espetáculo.

Acima de todas as Constituições, tribunais e autoridades humanas, permanece um poder que ninguém consegue revogar: “O Senhor é justo e Ele ama a justiça.” — Salmos 11:7.

* Linoel Dias é jornalista, assessor de imprensa e
 colunista do Coisas de Agora

5 comentários:

Anônimo disse...

Muito esclarecedora, oportuna, séria e responsável sua argumentação, como sempre. Parabéns !!!

Eunice Gonçalves disse...

Sempre preciso nas palavras, meu caro! Parabéns!👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

Anônimo disse...

Mais uma.vez você foi perfeito meu caro amigo Leonel! É muito triste e desconfortável ver o que está acontecendo com a justiça brasileira (com minúscula sim)! Que Deus tenha piedade do nosso Brasil!

disse...

Meu amigo querido, a origem destes homens que vestem as togas diz muito a respeito do que estamos vivendo. Na verdade, está sendo lançada luz às intenções de cada um buscar o poder para estar ali. A extremama maioria da magistratura brasileira é oriunda da sociedade aristocrata, cujo interesse é conservar seus próprios poderes. Há uma pesquisa recente que este recorte da sociedade demonstra o odio a ascensão do pobre. É muita inocência nossa acreditar que quem se interessa em trabalhar na justiça brasileira quer realmente ser justo, em sua essência. Mais inocente é quem acredita naqueles que usam o nome de Deus pra fazer o povo acreditar em sua ombrodade,as no fim só é um caminho de manutenção de poder.

Joao Sant Anna Pinto disse...

Sim,
“O Senhor é justo e Ele ama a justiça.” — Salmos 11:7.
Excelente artigo!
Oremos para que se restabeleça a justiça no país.