sábado, 17 de outubro de 2026

O VOTO, A FÉ E OS POLÍTICOS. Por Linoel Dias*

Imagem IA Canva

Num momento em que a polarização política cresce ainda mais e se aproxima a decisão do segundo turno, o vale-tudo parece ter se estabelecido como estratégia para conquistar o eleitor, muitas vezes a qualquer preço. Argumentos são substituídos por ataques, propostas cedem lugar a acusações e, lamentavelmente, a exploração da religião passa a integrar o arsenal de convencimento de alguns candidatos.

Isso somente encontra terreno fértil quando falta conhecimento, discernimento e capacidade de avaliação por parte de quem deveria exercer, com liberdade e responsabilidade, o seu direito de escolha.

Misturar voto, fé e políticos num mesmo balaio é criar uma confusão de conceitos, interesses e responsabilidades. É como gritar do alto de uma montanha: a voz ecoa, vai e volta, mas nem sempre transmite uma mensagem compreensível.

Convém, portanto, compreender a diferença entre os três conceitos que, embora possam conviver harmoniosamente, não devem ser confundidos.

Primeiro - o VOTO é uma procuração de confiança que o cidadão concede a alguém para representá-lo na condução dos interesses públicos, por um período determinado. Não é um cheque em branco, muito menos uma declaração de fidelidade permanente. É uma escolha consciente, que precisa ser acompanhada, fiscalizada e avaliada. O político eleito tem o dever de prestar contas à sociedade, e o eleitor conserva o direito de reconhecer seus acertos e cobrar seus erros.

Segundo - a FÉ é uma convicção interior, uma confiança que ultrapassa os limites da realidade material e se fundamenta na relação com o Ser Superior, a quem se presta culto e devoção. Para o cristão, Deus não é candidato, não disputa eleições e não precisa de cabos eleitorais. Sua autoridade não depende de partidos, mandatos ou resultados nas urnas.

São oportunas as palavras de Jesus: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22:21). Uma colocação que considero extremamente importante: não devemos atribuir à política aquilo que pertence à espiritualidade, nem transformar a fé em instrumento de interesses eleitorais.

Terceiro - o POLÍTICO é aquele que participa da vida pública, ocupando ou não um cargo no governo, e assume responsabilidades na discussão, elaboração e execução de decisões que afetam a coletividade. Sua função deve ser servir à sociedade, e não se servir dela. O mandato é temporário; a responsabilidade pública, porém, exige ética, transparência, competência e compromisso com o bem comum.

Um político pode professar uma religião, assim como qualquer cidadão. Tem todo o direito de expressar suas convicções religiosas. O que não pode é utilizar a fé como instrumento de manipulação, nem imaginar que uma declaração de religiosidade seja suficiente para comprovar honestidade, preparo ou compromisso com a população.

PRINCÍPIOS INEGOCIÁVEIS

Numa democracia que se pretenda madura, numa sociedade que aspire à educação, à justiça e ao desenvolvimento, existem princípios que não podem ser negociados conforme a conveniência eleitoral:

1. Princípios morais: honestidade, integridade, respeito à verdade, responsabilidade e coerência entre discurso e prática.

2.   Princípios humanos e pessoais: respeito à dignidade humana, à liberdade de consciência, à família, à diversidade de opiniões, à solidariedade e ao direito de cada cidadão fazer suas próprias escolhas.

3. Princípios constitucionais: respeito à Constituição, às instituições democráticas, à liberdade religiosa, à igualdade perante a lei, à separação dos Poderes e ao Estado Democrático de Direito.

Esses princípios não devem se digladiar entre si. Ao contrário, precisam caminhar juntos, complementando-se e contribuindo para o bem-estar das pessoas e o desenvolvimento da nação.

A religião não deve ser prisioneira de partidos, assim como a política não deve ser refém de púlpitos. Igrejas não são comitês eleitorais, pastores não são cabos eleitorais e políticos não são representantes exclusivos de Deus na Terra. A consciência religiosa merece respeito, mas não pode ser sequestrada por interesses de ocasião.

A Bíblia nos ensina, em Provérbios 14:34, que "A justiça exalta as nações, mas o pecado é o opróbrio dos povos". É uma advertência que ultrapassa gerações e fronteiras: nenhuma nação se constrói apenas com discursos, promessas ou demonstrações públicas de religiosidade. É preciso justiça, ética, trabalho, responsabilidade e respeito ao próximo.

E QUANDO CHEGAR A HORA DE VOTAR?

Que cada eleitor examine os candidatos, independente de suas histórias: verifique suas propostas, seus compromissos e, principalmente, suas atitudes. Que não vote movido pelo medo, pelo ódio, vingança pela intolerância ou pela manipulação religiosa. Que não confunda o discurso com a realidade, a aparência com o caráter, nem a promessa com a realização.

Podemos divergir politicamente sem nos tornarmos inimigos. Podemos defender candidatos diferentes sem perder a capacidade de dialogar, respeitar e conviver. Afinal, nenhum resultado eleitoral deveria ser maior do que a paz social, a fraternidade e o respeito à dignidade humana.

A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira, mas exige que todos respeitem as regras do jogo democrático.

E, acima de tudo, não nos esqueçamos: políticos passam, partidos mudam, governos terminam e mandatos se encerram. A fé, quando verdadeira, não depende de resultados eleitorais. Deus não muda com as pesquisas, não perde eleições e não precisa de maioria parlamentar para exercer Sua soberania.

O voto escolhe representantes. A fé orienta a consciência. E a política deve servir à sociedade.

Que saibamos separar essas três dimensões, sem abrir mão de nenhuma delas. Que Deus nos conceda sabedoria para escolher; discernimento para avaliar, coragem para cobrar e humildade para respeitar aqueles que pensam diferentemente de nós.

Porque o Brasil precisa de bons políticos, de cidadãos conscientes e de pessoas de fé. Mas, acima de tudo, precisa de uma sociedade que não negocie seus princípios em troca de promessas, poder ou conveniências eleitorais.

Votemos com consciência, vivamos com princípios e caminhemos com fé.

Que o nosso voto seja livre, a nossa consciência soberana e a nossa fé inegociável!

Considero especialmente forte a distinção entre as três dimensões.

"Não se deve usar Deus para eleger políticos, nem usar políticos para justificar a fé. A política é uma responsabilidade humana; a fé é um compromisso espiritual."

É justamente nesse equilíbrio que reside a maturidade de uma sociedade democrática.

* Linoel Dias é jornalista, assessor de imprensa e
 colunista do Coisas de Agora

3 comentários:

Luiz Henrique Arruda Miranda disse...

Impecável!

Anônimo disse...

Excelente!

Anônimo disse...

PERFEITO !!!