sábado, 10 de outubro de 2026

PODER E PRESTÍGIO. Por Linoel Dias*

Duas realidades, muitas vezes antagônicas, estão quase sempre presentes na vida humana e, não raro, fazem sombra uma à outra: poder e prestígio

Imagem IA Chatgpt

O poder é a capacidade de impor a própria vontade sobre os outros, inclusive diante da resistência. O prestígio, ao contrário, não se impõe: conquista-se. É o reconhecimento, a honra, o respeito e a admiração que alguém recebe pela sua história, pelo seu caráter e, sobretudo, pela maneira como trata aqueles que estão ao seu redor.

Há pessoas que passam a vida buscando os dois: querem o poder para mandar e o prestígio para serem admiradas. O problema começa quando o poder deixa de ser instrumento de serviço e transforma-se em instrumento de domínio. É aí que o cargo sobe à cabeça, a autoridade se converte em arrogância e o ser humano começa a acreditar que a posição que ocupa o torna superior aos demais.

Quase todas as pessoas conseguem suportar as adversidades. O sofrimento, muitas vezes, revela nossa capacidade de resistência. Mas existe um teste ainda mais difícil para o caráter: dê poder a alguém. É diante da autoridade que descobrimos quem realmente somos. Porque o poder não necessariamente transforma uma pessoa; muitas vezes, apenas revela aquilo que ela já era.

A história está repleta de exemplos de homens que chegaram ao topo e, em vez de estender a mão, fecharam o punho; em vez de servir, passaram a exigir servidão; em vez de ouvir, determinaram; em vez de respeitar, intimidaram. O poder, quando não é acompanhado de humildade, pode produzir a perigosa ilusão de que tudo é permitido.

Na política, no judiciário, na religião, nas empresas e até dentro das famílias, essa tentação permanece. Quem recebe autoridade deveria receber também uma dose maior de responsabilidade. Quanto maior o poder, maior deveria ser a humildade; quanto maior o cargo, maior deveria ser o compromisso com aqueles que confiaram naquela liderança.

O verdadeiro líder não precisa lembrar constantemente aos outros que tem poder. Sua autoridade é percebida pela maneira como serve. Quem precisa humilhar para ser obedecido talvez tenha autoridade, mas não tem liderança. Quem precisa ameaçar para ser respeitado pode até possuir poder, mas dificilmente conquistará prestígio verdadeiro.

Há uma grande diferença entre ser temido e ser respeitado. O medo pode ser imposto; o respeito precisa ser conquistado. O medo desaparece quando o poder termina. O respeito, porém, pode permanecer mesmo depois que o cargo, a riqueza e os títulos já ficaram para trás.

E talvez seja justamente aí que poder e prestígio se separam definitivamente.

O poder passa. O cargo passa. A fama passa. O dinheiro passa. Os aplausos passam. Mas o caráter permanece na memória daqueles que cruzaram nosso caminho.

Existe uma frase atribuída ao psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung que resume, com precisão, essa contradição: “Onde impera o amor, não há desejo de poder; onde predomina o poder, falta o amor.” Essa é uma realidade. Quem verdadeiramente ama não precisa dominar. Quem serve não precisa se colocar acima. Quem compreende o valor do próximo não sente necessidade de diminuí-lo.

Existe uma lógica completamente diferente da lógica do poder humano. Quando os discípulos de Cristo discutiam sobre quem seria o maior, Ele não lhes ensinou a conquistar posições; mas a servir. “Quem quiser tornar-se grande entre vocês deverá ser servo.” E Ele próprio demonstrou isso não apenas com palavras, mas com a própria vida.

Essa é a inversão dos valores do Evangelho: na sociedade, muitas vezes, o maior é aquele que manda; para Cristo, maior é aquele que serve.

Por isso, talvez não deveríamos perguntar: “quanto poder eu tenho?” e sim “o que estou fazendo com o poder que recebi?”

Porque autoridade sem ética é um perigo. Poder sem responsabilidade é uma ameaça. Prestígio sem caráter é apenas aparência. Mas poder colocado a serviço do bem transforma-se em missão.

Um dia, não seremos lembrados apenas pelo cargo que ocupamos, pela autoridade que exercemos ou pelas pessoas que conseguimos fazer obedecer. Seremos lembrados pelo bem que fizemos, pelas vidas que ajudamos, pelas mãos que estendemos e pelo amor que deixamos pelo caminho.

O poder pode abrir portas. O dinheiro pode comprar espaços. O prestígio pode trazer aplausos. Mas somente o caráter pode deixar um legado.

* Linoel Dias é jornalista, assessor de imprensa e
 colunista do Coisas de Agora

2 comentários:

Laís Jacob disse...

Linoel, que texto forte e necessário! Ele toca em uma ferida muito real da nossa convivência em sociedade.
Quando o poder é usado para dominar ou manobrar em vez de servir, ele gera uma sensação amarga de desilusão e cansaço em quem está ao redor. Mas a sua reflexão traz uma clareza libertadora: ela nos lembra que posições e cargos são passageiros, enquanto a integridade e a paz de espírito são permanentes.
Saber que a verdadeira liderança nasce do serviço e do caráter traz uma serenidade enorme para quem escolhe não entrar nesse jogo de vaidades. A citação de Jung e a lembrança do modelo de Cristo fecham com chave de ouro. Esse texto é um sopro de sabedoria e um abraço na consciência de quem prioriza o bem e a paz acima de qualquer prestígio de fachada. Obrigado por compartilhar!

Anônimo disse...

Vivemos tempos dificeis em que o carater de uma pessoa se tornou segundo plano.