Entre as centenas de filmes sobre a guerra do Vietnam, existe um que conta o estupro e depois assassinato de uma jovem vietnamita, de uma aldeia de camponeses. Um dos soldados da patrulha se recusa a participar da barbárie, que não consegue evitar, e fica muito mal. Aí resolve denunciar o crime. A primeira frase que ouve: “O que acontece no campo, fica no campo”. Ou seja, os crimes do campo de batalha deveriam ser logo esquecidos, ao voltar.
A frase me ocorre no episódio do assassinato do coronel Paulo Malhães, o torturador que foi à Comissão Nacional da Verdade e contou tudo, com chocante frieza. Transposta para o caso de Malhães, a frase deve ser a primeira linha de investigação de sua morte. Ele rompeu o código do silêncio. Como muitos já estão supondo, principalmente autoridades, pode ter sido uma queima de arquivo.
Os indícios são claros: quem poderia saber onde morava? Vivia numa chácara, óbvio que se escondendo. Quem poderia saber que estocava armas? Os três assassinos chegaram perguntando por elas, segundo a viúva Cristina Batista Malhães. Quem teria interesse na sua morte? Para a esquerda, ou para quem denuncia os crimes da ditadura, ele era mais interessante vivo, e falando. Sua maior punição seria carregar o fardo de um passado tão repugnante. Já para os antigos arapongas, Malhães tinha virado um incômodo, abrindo fatos que todos desejam, até hoje, “deixar no campo”.
Contudo, nenhuma linha de investigação pode jamais ser descartada, cabendo também a possibilidade de vingança. Ainda que possibilidade mais remota.
A morte do doente mental Malhães tem cheiro de aviso e retaliação. Ele não fará nenhuma falta à humanidade. Mas tudo precisa ser esclarecido. Até para que não fique nenhuma suspeita sobre quem não usa tais métodos e nada tem a ver com isso.
* Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento).
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