quinta-feira, 22 de maio de 2014

ESTAMOS SEM ÔNIBUS. AGRADEÇA A JÂNIO QUADROS.
por Milton Saldanha*

Eu gostaria de saber que interesses levaram o ex-prefeito Jânio Quadros a sucatear a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Ele nunca explicou nada, nem como comprou mansão no Morumbi estando há décadas sem trabalhar. Levou para o túmulo muitos segredos. 

Quando Luiza Erundina assumiu a Prefeitura, sucessora de Jânio, e entregou a presidência da CMTC ao economista Paulo Sandroni, ele contou ter encontrado em estoque apenas um pneu para reposição. Você não leu errado, eu disse mesmo UM pneu. Isso mostra a que ponto chegou o processo deliberado de sucateamento da empresa, ao longo da gestão de Jânio. Aí não havia mais o que fazer, só restava privatizar o que restava do grande sucatão, passando tudo, principalmente as linhas mais rentáveis, ao setor privado.

Esse mesmo setor, que costuma provocar lockout (paralisação de empresas pelos próprios donos), em acertos com sindicatos, para pressionar o poder público e conseguir reajustes de tarifas.

A CMTC, fundada em 1947, foi uma bela empresa. Tinha os melhores ônibus e também os melhores motoristas. Um deles, que entrevistei para a revista “Eu Rodo”, da fábrica Volvo, estava há 30 anos sem nenhum acidente ou multa. Se, hoje, o prefeito contasse com ela, a Prefeitura e a população não teriam ficado reféns de grupos com táticas criminosas que disputam poder sindical, fazendo a população sofrer e causando danos e prejuízos a uma cidade inteira. A Prefeitura teria seus próprios ônibus para colocar nas ruas. Ainda que não resolvesse tudo, com certeza atenuaria muito o problema. 

Em março de 1962, como fruto de uma parceria dos governos federal, estadual e municipal, a CMTC recebeu de uma só vez 100 modernos (para a época) ônibus modelo D-1000, da FNM (Fábrica Nacional de  Motores). Ou seja, além de melhor servir ao transporte público da cidade de São Paulo, a empresa contribuía com uma empresa nacional, geradora de empregos a brasileiros, e poupando o país de evasão de divisas com importações. No final dos anos 1980, a CMTC tinha 3 mil ônibus, dos 8.500 existentes. Em 1991, montou com 60 unidades a primeira frota brasileira de ônibus movidos totalmente a gás natural. São memoráveis seus trólebus, elétricos construídos no Brasil, de baixo custo de manutenção, macios, silenciosos, não poluidores. Poderiam, com adaptações, ter substituído os bondes antigos, que eram barulhentos e duros. Sem desmontar o mais caro de tudo e que já existia, a rede aérea elétrica com suas pequenas estações de força. Mas não acredito em burrice, foi sacanagem mesmo! Sempre existe um grupo interessado, e que vai enriquecer, em detrimento dos interesses coletivos.

Quando trabalhei na Rádio Jovem Pan, nos anos 1970, e a rádio era ali perto do aeroporto de Congonhas, eu usava um ônibus da CMTC que me deixava a poucos metros do meu segundo emprego, o jornal Ultima Hora, na Barra Funda. Esse ônibus era padrão rodoviário, tinha bancos ótimos, de encosto alto, não levava passageiros em pé e ainda nos brindava com música de bom gosto. Como era um ônibus que saia do aeroporto, portanto servindo a muitos visitantes, logo que deixava o ponto entrava uma gravação, com alto padrão de locução, com informações sobre os principais pontos turísticos da cidade. Isso era a CMTC!

Perguntem agora, a quem sempre acha que privatização resolve tudo, qual empresa particular nos oferece um transporte dessa qualidade? 

Ah, vale ainda ressaltar que esse ônibus especial era só um pouquinho mais caro que o convencional. 

Se Jânio Quadros não tivesse acabado com a CMTC, e se a Prefeitura tivesse continuado investindo naquela empresa usando suas próprias receitas, sem onerar o orçamento, hoje teríamos uma empresa padrão de transporte coletivo, que poderia orgulhar São Paulo. E que seria uma referência para obrigar as empresas particulares a investimentos para um transporte civilizado e comparável ao transporte europeu e da América do Norte. 

No entanto, o que temos é esse lixo, que desrespeita a população diariamente, em todos os sentidos. Os motoristas, por exemplo, sequer passam por treinamento para dirigir com mais educação e zelo pela segurança dos seus passageiros. O transporte coletivo de São Paulo é uma verdadeira agressão ao ser humano.

A CMTC poderia estar operando hoje como operou no passado, inclusive cobrindo as linhas menos rentáveis, como fazia, porque as empresas particulares reclamavam. Elas nunca tiveram qualquer compromisso com o bom atendimento à população. Só queriam o filé e deixavam o osso para a CMTC. Não era justo, mas vá lá, engolível em nome do serviço ao público. 

E, num momento de lamentável crise como este que vimos agora, destinado na verdade a conturbar e a desestabilizar a autoridade quando se aproximam as eleições, a velha e gloriosa CMTC teria sido a salvação, porque era uma empresa do poder público.

Contudo, infelizmente, neste país se criou a panacéia de que privatização resolve tudo. Esquecendo-se do principal: é função sim do poder público prover a população dos meios essenciais para seu bem-estar e necessidades. É para isso que existem os impostos. E nisso o transporte público, decente e eficiente, tem que ser uma das prioridades.


Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento)


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