domingo, 18 de maio de 2014

VIDA APÓS A MORTE. QUE SACO!
por Milton Saldanha*

Não tenho medo da morte. Não é papo furado, pois já passei pertinho dela, quando sofri um enfarto, no ano 2000. Fui para UTI, fiquei 22 dias no hospital, passei por cirurgia de seis horas e meia e ganhei duas safenas e uma mamária para continuar vivo. Já escrevi sobre isso e, sinceramente, não tive medo de morrer. Tristeza, sim, o que é bem diferente.

 Lá se vão quase 14 anos, costumo dizer que vivo no lucro, procurando ter uma vida saudável. Como sou ateu, e espero que a declaração não me leve à fogueira, como acontecia na Idade Média, pois imagino que já se aceite que pensar é um direito, o meu único medo é que esteja errado e realmente exista uma forma de vida após a morte.

Caramba, se for verdade, deve ser um martírio e um tédio infernal, sem trocadilhos, ficar lá no além sem fazer nada. Sem fazer nada, pela eternidade. Tais espíritos devem ter muita saudade da vida terrena, e muita inveja dos vivos. Espírito não tem dor de dente, nem dor nenhuma, pois não tem corpo. Isso já é uma vantagem. Mas que estranho deve ser o cara ser só pensamento, sem uma forma que o identifique. Sem voz. E olhos? Espírito enxerga? Ou apenas intui?

Como ninguém voltou para contar, e nenhuma prova foi apresentada – e falo de prova consistente e real, não sofisma, muito menos charlatanismo – essa tal de vida após a morte me assusta por tudo que tem de sacal. Sem sexo. Sem uma boa mesa, bom vinho. Sem jogo de futebol. Sem tango para dançar, hoje meu principal hobby e prazer.

Supondo que exista reencarnação, fenômeno que é a base do espiritismo e fortemente rejeitado pelo catolicismo, deve existir uma fila para a volta à terra. Caso contrário, a população da terra já estaria multiplicada pelo número de habitantes que teve desde a origem dos homens. Ou reencarnação é privilégio de poucos? Mas se for, o que acontece com os demais espíritos, os não agraciados? Ou voltar a vida seria castigo, para aqui cumprir penitências?

Ficar pairando no espaço, pela eternidade, sem fazer nada e sem emoções, esse sim deve ser o pior castigo. Exceto se lá existir alguma forma de prazer que desconhecemos e foge ao nosso entendimento.

Toda beleza está no mundo e na vida. Se o etéreo for melhor do que isso... Aguardemos nossa vez, para saber. Mas não tenho pressa.


Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento)

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