sábado, 31 de janeiro de 2026

A ÉTICA DEPENDE DA ÓTICA DE CADA UM? Por Linoel Dias*

Ilustração: uniube.br

Em alguns grupos de discussões, costuma-se dizer que a ética depende da ótica de cada um. A frase, à primeira vista, parece sugerir tolerância e respeito às diferenças de pensamento. Contudo, quando analisada mais profundamente, ela revela um risco perigoso: o de transformar a ética em algo relativo, moldável conforme interesses pessoais, conveniências ou circunstâncias.

As atividade humanas, como por exemplo, a política, jurídica, jornalismo, economia e outras, até nas relações mais simples do cotidiano — percebe-se como a ética, muitas vezes, é interpretada conforme o ângulo de quem observa. Aquilo que para uns significa “estratégia”, para outros é “manipulação”; o que alguns chamam de “flexibilização”, outros reconhecem como “corrupção”; o que se apresenta como “liberdade de expressão” pode, em certas situações, esconder desrespeito, intolerância e falta de compromisso com a verdade.

A ética, no entanto, não deveria ser refém da ótica, ou do bom humor individual. Ela nasce de princípios que visam o bem comum, a dignidade humana, a justiça e o respeito ao outro. Quando esses pilares são relativizados e não respeitados, abre-se espaço para a banalização do erro e para a normalização de práticas que ferem consciências e destroem a confiança social. Uma sociedade que ajusta seus valores conforme a conveniência de um ou de outro, corre o risco de perder suas referências morais.

O escritor, físico e matemático alemão Georg Lichtenberg revela uma verdade tremenda em uma de suas frases sobre liderança e convivência social: - “Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”.

Autoridades brasileiras e mundiais têm mostrado, infelizmente, total desconhecimento do que seja ética e, por isso mesmo, não podem exigir o devido respeito. A realidade é que a liderança não se sustenta, deixa de ser referência e passa a ser motivo de descrédito. Como consequência natural, os que deveriam obedecer, perdem o respeito, não por rebeldia gratuita, mas porque o exemplo foi quebrado. O respeito não se impõe pela força do cargo, mas se constrói pela coerência entre discurso e atitude. Não se exerce através de uma “canetada”, mas também da lisura familiar. Onde falta vergonha no comando, instala-se a desordem nas relações.

Esse cenário torna-se ainda mais grave e triste, quando a falta de ética se infiltra em espaços que deveriam ser exemplos de retidão, fé e serviço. No campo religioso, por exemplo, é doloroso constatar que alguns líderes, que deveriam ser pastores de almas, passam a agir como mercadores da fé. Preocupam-se mais com a lã das ovelhas do que com as próprias ovelhas; mais com números, poder e benefícios, do que com cuidado, misericórdia e compromisso espiritual. Falta piedade, sobra interesse. Falta testemunho, sobra discurso. Alguns usavam togas e ternos bem talhados, outros, mais modernos usam camisas esportivas e sapatilhas.

O conluio entre religiosos, políticos e pretensas autoridades, nos últimos anos, é de causar espécie e mesmo vergonha. A tradição religiosa ensina que a ética não é apenas um código externo de normas, mas uma atitude interior, fruto de uma consciência iluminada pela verdade. Não basta parecer correto aos olhos dos outros; é preciso sê-lo diante de Deus e da própria consciência. A fé, quando autêntica, não se adapta à conveniência do momento, mas desafia o ser humano a viver com coerência, mesmo quando isso custa sacrifício.

Portanto, a ética não deveria depender da ótica de cada um, mas de valores sólidos que transcendam interesses individuais. Ela exige responsabilidade, empatia e compromisso com o bem. Onde a ética é relativizada, a confiança se rompe; onde é vivida com verdade, nasce a esperança. Em tempos de confusão moral, talvez o maior desafio seja reaprender a olhar a vida não apenas com os olhos do benefício próprio, mas com o olhar da justiça, do amor e da verdade.

* Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora”

5 comentários:

Gilberto Santos disse...

Como sempre, perfeito, parabéns Linoel Dias, abção.

Nilton Cinti disse...

Muito bom e verdadeiro! Quem dera os homens pudessem rever suas óticas e criarem juízo pra aplicar a justiça, o amor e a esperança que já se vai acabando!

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto Sr. Linoel. Necessário para os dias atuais.

Sá disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sá disse...

Maravilhoso querido Linoel 💕