Em alguns grupos de discussões, costuma-se dizer que a ética depende da ótica de cada um. A frase, à primeira vista, parece sugerir tolerância e respeito às diferenças de pensamento. Contudo, quando analisada mais profundamente, ela revela um risco perigoso: o de transformar a ética em algo relativo, moldável conforme interesses pessoais, conveniências ou circunstâncias.
As atividade humanas, como por exemplo, a política, jurídica, jornalismo, economia e outras, até nas relações mais simples do cotidiano — percebe-se como a ética, muitas vezes, é interpretada conforme o ângulo de quem observa. Aquilo que para uns significa “estratégia”, para outros é “manipulação”; o que alguns chamam de “flexibilização”, outros reconhecem como “corrupção”; o que se apresenta como “liberdade de expressão” pode, em certas situações, esconder desrespeito, intolerância e falta de compromisso com a verdade.
A ética, no entanto, não deveria ser refém da ótica, ou do bom humor individual. Ela nasce de princípios que visam o bem comum, a dignidade humana, a justiça e o respeito ao outro. Quando esses pilares são relativizados e não respeitados, abre-se espaço para a banalização do erro e para a normalização de práticas que ferem consciências e destroem a confiança social. Uma sociedade que ajusta seus valores conforme a conveniência de um ou de outro, corre o risco de perder suas referências morais.
O escritor, físico e matemático alemão Georg Lichtenberg revela uma verdade tremenda em uma de suas frases sobre liderança e convivência social: - “Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”.
Autoridades brasileiras e mundiais têm mostrado, infelizmente, total desconhecimento do que seja ética e, por isso mesmo, não podem exigir o devido respeito. A realidade é que a liderança não se sustenta, deixa de ser referência e passa a ser motivo de descrédito. Como consequência natural, os que deveriam obedecer, perdem o respeito, não por rebeldia gratuita, mas porque o exemplo foi quebrado. O respeito não se impõe pela força do cargo, mas se constrói pela coerência entre discurso e atitude. Não se exerce através de uma “canetada”, mas também da lisura familiar. Onde falta vergonha no comando, instala-se a desordem nas relações.
Esse cenário torna-se ainda mais grave e triste, quando a falta de ética se infiltra em espaços que deveriam ser exemplos de retidão, fé e serviço. No campo religioso, por exemplo, é doloroso constatar que alguns líderes, que deveriam ser pastores de almas, passam a agir como mercadores da fé. Preocupam-se mais com a lã das ovelhas do que com as próprias ovelhas; mais com números, poder e benefícios, do que com cuidado, misericórdia e compromisso espiritual. Falta piedade, sobra interesse. Falta testemunho, sobra discurso. Alguns usavam togas e ternos bem talhados, outros, mais modernos usam camisas esportivas e sapatilhas.
O conluio entre religiosos, políticos e pretensas autoridades, nos últimos anos, é de causar espécie e mesmo vergonha. A tradição religiosa ensina que a ética não é apenas um código externo de normas, mas uma atitude interior, fruto de uma consciência iluminada pela verdade. Não basta parecer correto aos olhos dos outros; é preciso sê-lo diante de Deus e da própria consciência. A fé, quando autêntica, não se adapta à conveniência do momento, mas desafia o ser humano a viver com coerência, mesmo quando isso custa sacrifício.
Portanto, a ética não deveria depender da ótica de cada um, mas de valores sólidos que transcendam interesses individuais. Ela exige responsabilidade, empatia e compromisso com o bem. Onde a ética é relativizada, a confiança se rompe; onde é vivida com verdade, nasce a esperança. Em tempos de confusão moral, talvez o maior desafio seja reaprender a olhar a vida não apenas com os olhos do benefício próprio, mas com o olhar da justiça, do amor e da verdade.
![]() |
| * Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora” |


2 comentários:
Como sempre, perfeito, parabéns Linoel Dias, abção.
Muito bom e verdadeiro! Quem dera os homens pudessem rever suas óticas e criarem juízo pra aplicar a justiça, o amor e a esperança que já se vai acabando!
Postar um comentário