Sempre brinquei de imaginar a invasão do box do chuveiro de coisas que vejo e acontecem pelo mundo. Talvez por ser ali no banho a hora em que, mal ou bem, debaixo do chuveiro, isolada, nua, ainda seja o único lugar onde ainda consigo me sentir mais tranquila e relaxada.
Moro em São Paulo, bem sabem, e por aqui a loucura da especulação imobiliária violenta e agressiva agora ocupa e demole tudo, até prédios para a construção de outros, cada um mais horrendo que outro, espetados lado a lado. Sempre brincava de temer que construíssem mais um justamente dentro do box. A coisa só piora e aumentam as assombrações: agora, assim como outros países desse mundo, temo e chego a imaginar a cara do Trump me olhando pelo vidro embaçado, onde antes eu gostava só de desenhar coraçõezinhos e vê-los se dissiparem no vapor.
Brincadeiras à parte, mas tentando manter o humor, que começo de ano foi esse? Aliás, que tempos são estes que nos trazem diariamente preocupações muito além das cotidianas? Muitas de sobrevivência, se teremos, todos, ar para respirar, como enfrentar o calor além do limite suportável, água para beber, energia elétrica, a estranha violência espalhada, o descontrole social e político, as instituições em choque e em cheque.
Agora, soma-se a intranquilidade causada por um maluco (normal, não é) poderoso brincando de mandar no mundo à sua vontade, pirando a diplomacia moderna, ultrapassando perigosas fronteiras, obrigando ao aumento de gastos com poderios militares, alegrando os senhores das armas, desarmando a promessa de que nunca mais veríamos tanto terror como os ocorridos no século passado. Fosse só ele. Mas não, a lista é grande e só aumenta numa movimentação geopolítica expressiva.
Os pesadelos agora nos pegam acordados e para quem, por obrigação profissional, precisa se manter informado, o estresse não passa mais nem debaixo d`água. Entendo até o sucesso do mundo das fofocas se alastrando em publicações sobre como celebridades e subcelebridades vivem, se vestem, esbanjam, por onde andam, com quem casam e descasam, se mostram. Essa outra realidade, se o biquini que usam é branco, de bolinhas, se “mostraram mais do que deviam”, que nunca sei bem o que é que deviam mostrar. Uma realidade paralela.
Ao mesmo tempo, aqui e ali, silêncio, o surpreendente suicídio de alguém que todos consideravam bem, e a cada dia se torna mais complexo entender o que se passa principalmente entre os mais jovens que creio não estarem sendo preparados além das telas do celular e das redes sociais nem para o sucesso.
Reparou que estamos em pleno verão e ainda nem surgiu uma modinha, uma graça qualquer? Vivemos o Verão da Lata, do assobio, do topless. Agora é só o do calor infernal, das chuvas, ciclones, rebeldia do mar causando milhares de afogamentos em dias, e já já vai é aparecer algum surto para marcar época.
O exemplo do box serve apenas para marcar uma fronteira mínima, íntima, pessoal; você pode entender esse espaço mínimo, mas me diga se tem outro. Já que todos os limites estão sendo violados, ultrapassados, modificados, precisamos imaginar onde é que ainda daria para nos proteger. Nosso bunker.
* Marli Gonçalves. Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon. Me encontre, me siga, juntos somos mais: Blog Marli Gonçalves, Facebook, Instagram, Twitter, BlueSky, Threads, marli@brickmann.com.br. Foto: @dukskobbi.



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