segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ESCRAVO DA BUROCRACIA. Por Ricardo Hernandes*

Ilustração: jusbrasil.com.br 

Em pleno século XXI, o cidadão brasileiro segue aprisionado por uma engrenagem invisível, mas poderosa: a burocracia estatal. Não se trata apenas de excesso de regras, mas de um sistema que se tornou um fim em si mesmo, impondo rituais, exigências redundantes e prazos indefinidos que corroem o tempo, a paciência e a confiança da sociedade nas instituições públicas.

O escravo da burocracia não se submete a um senhor, mas a formulários, carimbos, protocolos e sistemas digitais instáveis. Sua vida é regida por normas que mudam sem clareza, procedimentos mal explicados e exigências que frequentemente ignoram o bom senso. O mérito do pedido raramente importa mais do que o cumprimento estrito — e muitas vezes confuso — do rito administrativo.

Nesse modelo, a responsabilidade quase sempre recai sobre o cidadão. Se o Estado exige um documento que ele próprio emitiu, cabe ao interessado providenciá-lo novamente. Se há erro ou inconsistência, a falha é atribuída a quem “não seguiu corretamente o procedimento”. O sistema se protege, transfere o ônus e evita a autocrítica.

Órgãos públicos como Detrans, cartórios e repartições diversas simbolizam esse funcionamento. O tempo do cidadão perde valor institucional. Horas são convertidas em números de protocolo. Dias se transformam em “processos em análise”. Semanas ou meses podem terminar em um indeferimento genérico, sem explicação clara ou orientação objetiva para correção.

É importante reconhecer que a burocracia, em sua origem, não é um mal. Ela existe para organizar, garantir igualdade de tratamento e dar segurança jurídica. O problema surge quando o procedimento passa a ser mais importante do que o resultado, quando a regra se sobrepõe à finalidade e quando a eficiência deixa de ser considerada um dever do Estado.

A digitalização dos serviços públicos, anunciada como solução, trouxe avanços inegáveis, mas também revelou novas formas de exclusão e desorientação. O balcão físico foi substituído por plataformas que exigem cadastros múltiplos, senhas, validações e sistemas que frequentemente falham. O labirinto permanece — apenas mudou de endereço.

Nesse contexto, o cidadão deixa de ser o destinatário do serviço público e passa a servir ao sistema. Acumula comprovantes, arquivos digitais e registros que comprovam apenas uma realidade desconfortável: cumprir todas as regras não garante a resolução do problema.

Enquanto o Estado não compreender que eficiência, clareza e respeito ao tempo do cidadão são direitos fundamentais — e não concessões —, o país continuará produzindo não usuários de serviços públicos, mas escravos da burocracia: disciplinados, cansados e resignados como este motorista, habilitado pela primeira vez há 54 anos, que desde de outubro passado tenta renovar sua CNH, via DetranSP - Atende Fácil São Caetano do Sul. Tenham certeza de que não está nada fácil!

* Ricardo Hernandes é jornalista

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