Pleno Janeiro Branco, tempo de pensar a saúde emocional e mental. Pergunta por aí, a quem puder: você está achando que parece que todo mundo anda bem doido? Eu perguntei, e fiquei surpresa o quanto não só quase todos estão achando que sim, e inclusive sinceramente admitindo que se incluem nesse rol. Uma pesquisa sem registro, só para não achar que estou só e averiguar o grau, concluindo que perto do que ando vendo estou até bem. Normal, normal mesmo, ninguém está.
Em maio de 2009 escrevi o artigo “Numpintumsão” e que agora revisito porque o tema não só continua ativo, como muito pior proporcionalmente. 17 anos depois, o assunto atingiu outras dimensões, ganhou notoriedade e o mês de janeiro para ser discutido, e, ao tratá-lo hoje infelizmente fica exigida a inclusão de menos ironias e humor, menos questões de foro íntimo, pessoais. Fiquei, acredite, muito impressionada ao reler, agora, o que eu própria escrevi. Quanto tempo e como ele passa rápido! Eu ainda não tinha nem o blog pessoal que criei em 2010, ideia ainda tinha acento, tudo parecia mais livre e solto. Fui encontrá-lo em meus arquivos pessoais, em um sonhado projeto de um livro de crônicas. Vou repostá-lo aqui, ao final dessas considerações, torcendo para que ao menos as coisas não piorem ainda mais nos anos vindouros. Dá uma olhada.
Dito isso, vamos lá. Claro que atualmente há quem visivelmente anda bem doido, confuso, até aflito, mas não aceita e ainda responda com disparates – o negacionismo atinge o planeta também na questão da saúde mental. Vide os exemplos de alguns de nossos políticos, os soltos e alguns dos presos, incluindo ainda quem ardorosamente os defende apesar de tudo o que fizeram, que todos assistimos. E a confusão criada diariamente por alguns dos membros de instituições poderosas e suas decisões controversas, inexplicáveis e tortuosas?
Os parâmetros entram em crise quando se perde a confiança no que nos dava alguma segurança, sendo por eleição, por pagamento de impostos, respeito, ou até por paixão, amor ou idolatria, entre outras formas de entrega e dedicação. Isso tudo vêm se transformando cada vez mais rapidamente com a vida digital, informação volátil, ignorância assumida, um individualismo que se destaca para garantir a sobrevivência.
Os fatores não ajudam: a crise climática que ao mesmo tempo ferve nossos miolos desse lado, congela outros em estações que nos fazem acompanhar ansiosos a meteorologia e as moças do tempo como se realmente adiantasse nos adiantar. Tentar nos proteger da violência que espreita cada esquina e também invade silenciosa e sorrateiramente todos os meios digitais, fazendo com que qualquer segundo de distração ou mesmo de boa-fé possa se transformar em pesadelo e vergonha por ter caído em algum golpe. O que deveria melhorar, estar sanado, como a violência contra as mulheres, atingindo picos inaceitáveis.
Muito estranho tantos anos depois ver o quanto houve progresso e, ao mesmo tempo, retrocesso; como tudo ficou mais chato e perigoso, e o quanto ainda estamos desassistidos em algo tão importante.
Numpintumsão, mesmo.
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* Marli Gonçalves. Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br. Foto: @dukskobbi. |
Numpintumsão
Fale alto e devagar, pausadamente. Num-pin-ta-um-são! Não pinta um, não é verdade? Você conhece? Ou, pior, você se considera são?
Pescou? Pensou? Não tem, gente! Quando a gente acha que já viu de tudo, sempre aparece mais um ser inusitado à nossa frente. Isso acaba sendo o rico, maravilhoso e verdadeiro sentido da existência. Já pensou se todos nós fôssemos iguais? Ou normais, modelos básicos, standard? Estou falando de sanidade “mental”, comportamental, embora também indo pelo lado sanitas (saúde), diga, quem é que não tem uma bereba, um ponto fraco, um defeito de fabricação?
Sempre morei em lugares centrais onde todos os mundos se encontram, onde dá de tudo. Tanto podem ser mundos arrojados, contemporâneos, cosmopolitas, quanto grosseiros, grotescos e pouco desenvolvidos. Nos centros, o epicentro de tudo quanto é tipo. Além disso, pela força da profissão, encontrei ou esbarrei em personagens inesquecíveis, exemplos de vida, histórias fantásticas e únicas. E numpintumsão. Garanto.
Há anos essa palavra habita meu vocabulário particular, evocada, pensada ou dita bem rápido a cada uma das figuras que cruzei, e uma palavra pronta para ser o título, talvez, de uma coletânea de pequenas dessas histórias. Um dia. Eu contaria a história da amiga que só vai ao banheiro acompanhada de uma caixa de fósforos. Dos decotes e requintes de estrela de um dos muitos amigos perdidos, um que adorava Elizabeth Taylor. “Se a Elizabeth Taylor solta pum, também posso”, sempre dizia, fazendo trejeitos da diva.
Contaria a história de um ribeirinho, que tinha uma cama presa a correntes no teto de sua casa ali na beira. A água ia subindo, a cama também. O fogão boiando em cima de um isopor. O botijão de gás amarrado com correntes a uma viga. A decoração: as folhas d’água que o rio trazia. E ele sorria.
Certamente contaria a sua história, se a conhecesse. Manias especiais. Artistas e músicos têm muitas delas, algumas bárbaras, outras esquisitíssimas. Jornalistas também, além de um ou outro trauma e a vontade de consertar o mundo, que não é coisa normal. Poderei contar alguns medos que conheci por ouvir falar e que agora também habitam os meus medos. Um dos piores, morrer engasgada, sozinha. Poderei contar algumas fantasias, desejos íntimos confessados, também. Sei de cada uma!
Não é à toa que a Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, há alguns anos, constatou em uma pesquisa feita num raio de 5 km que mais de 50% das pessoas dali careciam ou viriam a precisar, em breve, nos anos seguintes, dos serviços do hospital. Seja por casos de depressão, ansiedade, esquizofrenia, alcoolismo e drogas, manias e/ou compulsões. Acho que já chegou esse tempo.
Quem nunca se desencontrou, perdido no seu íntimo, quem nunca pirou por amor, quem já não se sentiu um estranho no ninho? Quem já não teve uns tremeliques? É difícil se expor nessas horas, tendemos a nos isolar. Mas lembre que todo mundo continua ali ao redor assistindo aos nossos shows particulares, e quando “voltamos” (e se voltamos) ficamos sabendo o que tanto diziam de nós aquelas boquinhas nervosas e meio que fofoqueiras.
Loucuras que fazemos até por nada, nem se sabe de onde vêm, repentes. Mulheres – acho que todas – já pensaram pelo menos uma vez na vida em botar fogo nos seus armários, em geral antes de uma festa ou quando simplesmente não encontraram nada que quisessem vestir. Homens – creio que se desesperam em pensar que podem falhar na hora H. E falham. As coitadas das crianças, como é possível que lidem bem com tantas e todas as novidades que a vida vai apresentando? Daí, acredito, advêm muitos traumas, complexos, fatos que marcarão sua personalidade como adultos.
O negócio é que está tudo muito acelerado e a diversidade mais abrangente. Respeite. Tente ao menos entender, aceitar, como somos todos tão diferentes, tão complexos, multifacetados. O careta pode ser o mais louco de todos. O mais santo, o maior falsário. No delírio do louco, pode estar a precisão que um pensamento cartesiano não alcança jamais. Onde você nunca esperaria algo pode estar a fonte de muitas soluções. E tudo pode acontecer.
Não dá para se exigir ser são. Sabia que é abreviatura de santo? E se numpintumsão, vaipintarlogoumsanto?
São (!!!) Paulo, país da Mãe Joana, quase com uma boa idéia, 2009.



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