sábado, 18 de abril de 2026

“ECOS DO CÉU: A INSPIRAÇÃO ETERNA DO MESSIAS”. Por Linoel Dias*

Na segunda-feira, 13 de abril, ecoou mais uma vez na cidade de Dublin uma das mais sublimes composições da história da música: o Oratório Messiah, de George Frideric Handel. Tradicionalmente celebrado nessa data, o oratório chega a mais um ano de existência — atravessando séculos como uma obra que transcende o tempo.

Em sua estreia, na capital escocesa, há 284 anos, talvez poucos tenham compreendido plenamente a grandeza do que ali se apresentava. Como acontece com tantas obras verdadeiramente inspiradas, seu valor não se revelou de imediato. Foi sendo desvendado ao longo do tempo — não apenas como uma magnífica expressão musical, mas como uma mensagem viva, capaz de tocar o espírito humano em sua essência mais profunda.

Segundo biógrafos, o compositor barroco alemão, que mais tarde se naturalizou britânico, levou 24 dias para compor o Messiah. Quase não se alimentava e, ao final disse uma frase que será eternizada: “Esses dias, eu senti e pensei ter visto os céus, e o próprio Deus dentro de mim”.

Entre os trechos mais profundos do Messias, dois ressoam com muita força e reverência: o primeiro é o famoso Aleluia, cantado até hoje em várias solenidades, em que o compositor cita pelo menos 50 vezes a palavra Aleluia. O segundo trecho, é o icônico “Digno é o Cordeiro”, encerrando com o “Amém”, longo e deslumbrante.

Todas as expressões, retirada das visões do livro do Apocalipse, não constituem apenas verso cantado com majestade; são declaração de reconhecimento, de entrega e de fé. O Cordeiro representa o sacrifício, o amor que se doa sem reservas, a humildade que vence a força, a luz que dissipa as trevas. Dizer que Ele é digno é reconhecer que, acima das dores do mundo, existe um propósito maior, uma redenção possível, uma esperança que não se apaga.

Vivemos tempos em que, muitas vezes, o ruído do mundo abafa as melodias e os anseios da alma. Guerras, incertezas, angústias pessoais — tudo parecem competir com a nossa atenção. E, no entanto, a mensagem permanece atual: há um sentido mais profundo na existência, há um chamado à elevação do espírito.

“Digno é o Cordeiro” nos convida a uma pausa interior. A silenciar o coração inquieto e a refletir: a quem temos atribuído valor em nossas vidas? Quais são os “tronos” que temos erguido — o orgulho, o poder, dinheiro — e que, no fundo, não sustentam a verdadeira paz?

Reconhecer a dignidade do Cordeiro é, também, um exercício de transformação pessoal. É aprender que a verdadeira grandeza está na entrega, que a vitória mais nobre não é a que domina, mas a que serve; não é a que impõe, mas a que ama.

Assim como aquela obra, que começou diante de um público limitado e hoje ecoa pelos séculos, também a fé e a verdade muitas vezes começam discretas em nosso interior. Mas, quando cultivadas, tornam-se grandiosas, capazes de transformar vidas e iluminar caminhos.

Que, em meio às vozes do mundo, possamos ainda ouvir essa melodia grandiosa e eterna. E que, mais do que cantá-la com os lábios, possamos vivê-la com o coração.

Digno é o Cordeiro. Aleluia. Amém!

* Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora”

Nenhum comentário: