sábado, 11 de abril de 2026

TEMPOS DIFERENTES. APENAS TEMPOS DIFERENTES! Por chicolelis*

Foto: IA Canva

Quando comecei minha vida atrás de uma Remington (ou teria sido uma Olivetti?), em A Tribuna (Santos, SP) em 1969, tínhamos laudas de papel de 20 linhas, com 70 toques, espaço 2, em cada uma delas. Anos depois, na Sucursal de O Globo, já em São Paulo, SP, as laudas permaneciam presentes em nosso dia a dia, com um elemento novo, usávamos papel carbono (quem ainda lembra dele?) para fazer duas cópias.

Elas eram guardadas na Sucursal e uma, a original, seguia para o Rio de Janeiro, diariamente, levadas em um voo da TAM, pelo Oswaldo (não lembro sobrenome), junto com o material de propaganda.  Essa frequência assídua valeu a ele a visita, em sua casa, do comandante Rolim, presidente da empresa de aviação, para presenteá-lo por sua fidelidade. Mas ressalto aqui que, o material gerado pelos quase 30 profissionais que atuavam na sucursal, era enviado por telex para a sede do jornal, no Rio de Janeiro.

Hoje, minha Olivetti portátil, presente do meu amigo Nereu Leme, quando de minha saída da GM (onde era Gerente de Imprensa), está guardada na prateleira com alguns livros que releio, mas nunca mais a usei. Mas não me desfaço dela. Faz parte da minha vida.

E por que toda essa introdução, falando de um passado?

Porque hoje estou aqui, diante de uma máquina que me permite correções, sem ter que bater xxxxxxx, sobre o erro, ou recomeçar tudo.

E, além disso, também lembrar dos tempos em que nós, jornalistas da área automobilística, tínhamos uma grande proximidade com os dirigentes da indústria, em uma mútua confiança.

Um exemplo disso era a reunião de diretoria da ANFAVEA, às quintas-feiras. Terminada, o então presidente Newton Chiaparini convidava alguns jornalistas para um “open bar” onde tudo se falava abertamente, sem censura, com a certeza de que nós, da Imprensa, não publicaríamos nada do que fosse falado ali, por mais importante que fosse.

Cabia a cada um de nós o respeito ao acordo de sigilo. E nunca nada do que foi ouvido ali, foi publicado. E saibam que foram coisas muito importantes. Nada que prejudicasse alguém, fábricas ou entidades. Mais assuntos relacionados a novos investimentos ou produtos.

O presidente do Sindipeças à época (falo dos anos 80), Pedro Eberhardt (da Arteb), reunia dois ou três jornalistas do setor no Restaurante Vikings (Hotel Maksoud Plaza onde Frank Sinatra fez quatro shows em 1981) para conversas sobre o setor, a economia. Tudo em “off”, claro.

Carlos Fanucchi, seu antecessor, era também, um empresário (Freios Varga) com ótimo relacionamento de confiança mútua com a imprensa do setor.

Lembro de Wolgang Sauer (presidente da VW entre 1973 e 1989) e seus charutos cubanos. Sempre atencioso com os jornalistas, conhecia a maioria pelo nome e nunca deixava uma pergunta sem resposta, mesmo que fosse: “sobre esse assunto não posso falar”.

Assim também agia Joseph Sanches (presidente da GM em 1980), corintiano que colocava uma camiseta do seu time por baixo da camisa e circulava pela fábrica nas segundas-feiras, em que o time havia vencido no domingo, recebendo aplausos e vaias das torcidas adversárias, com um largo sorriso.

Era gentil e atencioso com os jornalistas, sempre disposto a atender a Imprensa, assim como Joseph O’Neill, presidente da Ford nos anos 70, quando lá estava, como responsável pela Imprensa o querido José Carlos Secco, o “Seccão”, que ajudou o seu presidente a ser um dos mais admirados do setor.

Por falar em admiração, não posso deixar de lembrar de André Beer, que não foi presidente da GM oficialmente, mas o foi por influência junto a todos os presidentes com quem atuou. Foi presidente da ANFAVEA e criou um encontro/almoço mensal para divulgar os números de produção do setor.

Outro presidente, este da Ford, com boas relações com a Imprensa foi Roberto (Bob) Gerrity, que era capaz de chamar jornalistas para conhecer segredos de fábrica, antes do seu lançamento, confiando no silêncio do profissional.

Muitos outros presidentes mantiveram relações extremamente cordiais com a Imprensa, tanto a especializada quando a de Economia. E suas atuações e comportamento sempre admirados, até mesmo desfilando na Sapucaí, como Mark Hogan, que tocou tamborim na bateria da Portela, ou como seu antecessor, Richard (Ric) Wagoner, que teve dois filhos nascidos no Brasil, País que ele sempre declarou amar.

Mais recentes neste mundo automobilístico, é possível destacar o ex-presidente da Fiat, Cledorvino Belini, sempre grato a quem colaborava com ele. É colecionador de lápis (alguém ainda usa esse objeto de escrita?) e tinha um carinho especial para com a imprensa automotiva, que atendia com fidalguia. E chegava a ligar para alguns deles para perguntar: sabe o que está acontecendo? Era para informar.

Mas os tempos mudaram

Hoje, segundo os colegas que atuam no setor, esta proximidade não existe mais. Dificilmente um presidente de montadora chega a aproximar-se como em tempos passados dos jornalistas. Os tempos mudaram, não há mais tempo para longas conversas, ou encontros após lançamentos para falar dos planos da fábrica/montadora para o futuro.

Foram-se os tempos da Olivetti, da Remington, das laudas e do carbono. Hoje vivemos tempos do computador, do tablete, do celular que faz foto magnificas.

Tempos diferentes. Apenas tempos diferentes!

* chicolelis   -  Jornalista com passagens pelos jornais A Tribuna (Santos), O Globo e Diário do Comércio. Foi assessor de Imprensa da Ford, Goodyear e, durante 18 anos gerenciou o Departamento de Imprensa da General Motors do Brasil. Fale com o Chico: chicolelis@gmail.com.

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