sexta-feira, 10 de julho de 2026

UMA AVENTURA FRUSTRADA. Por chicolelis*

Acho que eram umas 9 horas da manhã. Talvez 10. Estava em casa e o telefone me chama. Era da sucursal de O Globo, onde eu era repórter, com a seguinte ordem: tome um táxi e vá para Congonhas se encontrar com o “Soneca”, como era conhecido o fotógrafo Antônio Carlos Piccino (grande parceiro que já nos deixou). E lá eu receberia as instruções.

Ao mesmo tempo, Ernesto Paglia, então repórter da Rede Globo e o cameramen Marco Antônio Gonçalves, receberam um “rádio”, isso mesmo, um rádio (estávamos no início dos anos 80 e não existia celular) do chefe de reportagem na época, pedindo que eles ligassem para a redação, que ficava na Praça Marechal Deodoro.

Conta o Marco, que toda equipe, ao sair, recebia cinco fichas para usar em orelhões (lembra desse tempo?) e receber informações sigilosas como aquela: vão agora para Congonhas, o Maluf (à época, governador de São Paulo) vai anunciar descoberta de petróleo no fim da tarde e vamos dar a notícia. A Globo temia que, falando pelo rádio, pudesse ser ouvida por concorrentes. Também recebi essa informação quando cheguei a Congonhas naquela manhã.

Encontramo-nos, eu e o "Soneca" pelo O Globo e eles, Paglia, Marco Antônio e um auxiliar, cujo nome não consegui recuperar, pela TV Globo, no hangar de uma empresa aérea de transporte executivo, cujo nome também não lembro (sorry!).  Nosso destino era Ilha Solteira. Descendo lá, os responsáveis pela sua administração disseram que erramos e que deveríamos ir até o Pontal do Paranapanema, alguns quilômetros adiante, mas que havia lá uma pista de pouso. O piloto da nossa aeronave pegou um grosso livro, que continha todas as pistas do País e viu que havia lá uma pequena, de terra, onde poderia aterrissar.

- Sabe se desceu algum avião lá recentemente?

Foi a pergunta do piloto que recebeu um “sim” como resposta.

- Então eu também desço.

E lá fomos nós, no jatinho executivo, em direção ao Pontal do Paranapanema.

Lá chegando, ao avistarmos a pista, o piloto mostrou que era bem pequena e estava tomada por bois e vacas pastando nela. Demos dois rasantes, mas os animais não se incomodaram. Sorte é que apareceu um garoto, que conseguiu espantá-los com um singelo chapéu de palha.

O piloto então disse que precisava ver se havia buracos na pista e nos avisou que iria dar um rasante. Fez isso, fazendo com que a câmera no colo do Marco Antônio, foi pressionada causando muitas dores a ele.

- Bem, tem alguns buracos, mas nada grave. Vamos  descer!

E desceu mesmo!

Meio que aos trancos e barrancos, descemos. E para nossa surpresa ele nos avisou que, em razão do número de pessoas (éramos em sete: dois do jornal, três da TV, mais piloto e copiloto) não haveria condições de decolagem e que nos esperariam no aeroporto de Ribeirão Preto.

Como o pessoal da Ilha Solteira avisara o pessoal do Pontal da nossa chegada, assim que pousamos surgiu uma multidão de pessoas e táxis para nos pegar.

Fomos até o local indicado e......

Frustração

Não havia o petróleo. Somente gás, que a Paulipetro já havia detectado anteriormente.

Marco fez algumas imagens, assim como o “ Soneca” e nos ocorreu perguntar: e agora, como vamos para Ribeirão Preto. A resposta nos foi dada pelo ronco do motor de um helicóptero que nos levou até o aeroporto de Ribeirão Preto.

Lá chegando, procuramos o balcão de informações para saber do nosso avião. E soubemos que seu piloto e copiloto nos esperavam em um bar.

Bar?

Sim, em um bar. E lá fomos nós, encontrar os dois que já estravam “pra lá de Bagdá”, como se diz na gíria, tal a quantidade cervejas que tomaram no bar.

- Como já está em cima da hora de fechar Congonhas, decidimos que vamos pernoitar aqui e voamos amanhã cedo.

- Eu preciso ir hoje! Temos que ir hoje!

Ernesto Paglia, que havia se comprometido com sua esposa para algo logo cedo na manhã seguinte, exigiu que voássemos para São Paulo.

Vendo a situação, só concordei depois de tomar duas doses “cowboy” de uísque (que eu nem gosto) para ter coragem de entrar no avião com aqueles dois, que ao entrarem no jatinho, colocaram máscaras de oxigênio e tivemos uma viagem tranquila.

Em Congonhas, onde chegarmos bem na hora de fechar o aeroporto (23 horas) estranhamente, não paramos junto ao hangar da empresa. Os dois saíram apressada e educadamente, nos dando boa noite e sumindo nas nossas vistas.

E não havia petróleo no Pontal!

Foi frustrante, mas nessa semana que passou, durante um café, eu e o Marco Antônio nos divertimos muito lembrando dessa aventura.

* chicolelis   -  Jornalista com passagens pelos jornais A Tribuna (Santos), O Globo e Diário do Comércio. Foi assessor de Imprensa da Ford, Goodyear e, durante 18 anos gerenciou o Departamento de Imprensa da General Motors do Brasil. Fale com o Chico: chicolelis@gmail.com.

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