sábado, 31 de outubro de 2026

DOIS BICUDOS NÃO SE BEIJAM. Por Linoel Dias*

Entre o orgulho e a humildade, existe um caminho chamado respeito.

O ditado popular “Dois bicudos não se beijam” tem algumas variações, como “Dois bicudos não se bicam” e até expressões menos usuais, como “Dois malandros se entendem ou não se entendem”. Independentemente da versão, a ideia é bastante conhecida: duas pessoas de personalidade forte, temperamento difícil ou excessivamente orgulhosas encontram grandes dificuldades para conviver, ceder, dialogar ou chegar a um entendimento.

Mas será que estamos realmente diante de pessoas de gênio forte ou, simplesmente, de pessoas que não aprenderam a respeitar os outros?

Existe uma diferença enorme entre personalidade forte e comportamento arrogante. Ter convicções, defender princípios e não abrir mão dos valores é legítimo. Entretanto, usar o chamado “gênio forte” como justificativa para a falta de educação, a intolerância, a prepotência e a incapacidade de ouvir opiniões contrárias é outra história. Não podemos transformar defeitos de comportamento em virtudes de personalidade.

A boa convivência exige algo que parece cada vez mais raro: compostura, educação, respeito e, sobretudo, humildade. Nem sempre teremos razão; nem sempre nossas opiniões serão aceitas; nem sempre encontraremos pessoas que pensem como nós. E isso não deveria ser motivo para conflitos, ofensas ou demonstrações de superioridade. Saber discordar sem desrespeitar é uma das maiores demonstrações de maturidade.

Infelizmente, encontramos esse comportamento em diferentes segmentos da sociedade, inclusive entre políticos, magistrados, jornalistas e líderes religiosos. Pessoas que, investidas de autoridade, prestígio ou poder, parecem não admitir serem contrariadas. Esquecem-se de que cargos são passageiros, posições são circunstanciais e títulos não conferem superioridade moral a ninguém. Autoridade não é licença para a arrogância, tampouco o poder deve ser confundido com o direito de humilhar ou intimidar.

É preciso, sim, colocar cada coisa em seu devido lugar. Não para diminuir pessoas, mas para restabelecer limites, responsabilidades e princípios elementares de convivência. Respeitar não significa concordar com tudo, assim como discordar não significa desrespeitar. A verdadeira grandeza está em reconhecer o outro como alguém que também tem o direito de pensar, falar e ser ouvido.

No cristianismo, encontramos ensinamentos que caminham justamente na direção oposta ao orgulho e à vaidade. Cristo ensinou que “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mateus 20:26). E também nos deixou uma lição extraordinária: “Mais bem-aventurado é dar do que receber” (Atos 20:35).

O próprio Cristo, sendo Mestre, não procurou privilégios nem se colocou acima daqueles a quem ensinava. Ao contrário, lavou os pés dos discípulos, demonstrando que a verdadeira liderança não está em ser servido, mas em servir; não está em impor respeito pelo medo, mas conquistá-lo pela conduta.

Paulo, aos Filipenses (2:3), aconselha: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo.” Que ensinamento oportuno para os nossos dias!

Talvez o maior problema não seja a existência de dois bicudos, mas a ausência de alguém disposto a baixar a guarda, ouvir, compreender e construir uma ponte. Afinal, não precisamos pensar da mesma maneira para caminhar na mesma direção.

A vida não é uma disputa permanente para saber quem fala mais alto, quem tem a última palavra ou quem consegue impor sua vontade. Há momentos em que vencer uma discussão significa perder uma amizade; e há ocasiões em que ceder não representa fraqueza, mas sabedoria.

Que tenhamos personalidade sem arrogância, firmeza sem intolerância, autoridade sem prepotência e convicção sem perder a capacidade de ouvir.

Que o Grande Criador e Provedor nos conceda sabedoria para reconhecer nossos próprios limites, humildade para corrigir nossos erros e generosidade para respeitar aqueles que pensam diferente de nós.

Porque, no final das contas, não é o tamanho do nosso orgulho que determina a nossa grandeza, mas a dimensão da nossa humildade.

E, se dois bicudos não se beijam, que pelo menos aprendam a não se ferir com os próprios bicos!

* Linoel Dias é jornalista, assessor de imprensa e
 colunista do Coisas de Agora

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