quinta-feira, 2 de outubro de 2014

PLANEJAMENTO: NO BRASIL NÃO EXISTE FUTURO.
por Milton Saldanha*

Mesmo sabendo que não estarei mais neste mundo, me assusta imaginar como será a vida lá por 2064, ou seja, transcorridos 50 anos. A razão é simples: previsão e planejamento não fazem parte da nossa cultura e prioridades.

O trânsito das grandes cidades brasileiras, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro, são o exemplo mais chocante. Quando Londres, Paris, Madri e também Buenos Aires já tinham metrô, aqui as autoridades insistiam que isso não seria necessário no Brasil. Com base em que, não me perguntem. Levamos mais de cem anos para começar o primeiro metrô, em São Paulo. Que já nasceu pequeno. Experimente embarcar na estação Sé às seis da tarde. Deu naquilo que todo mundo sabe: trânsito insuportável, transformando nossas cidades em fábricas de loucos.

A gravíssima crise da água em São Paulo é outro exemplo. Em menos de 30 anos as áreas de proteção de mananciais foram completamente invadidas. Os sucessivos governos estaduais e municipais nada fizeram para proteger essas áreas. Essa tarefa, porque se trata de infra-estrutura estratégica, deveria ter sido confiada às Forças Armadas, que fariam o controle efetivo para evitar a ocupação ilegal e desordenada que acabou acontecendo. Depois que as favelas se alastram, além das mansões totalmente ilegais (vide lago de Brasília), aí fica impossível resolver. O dano está feito e se torna irreversível. 

Na segunda metade dos anos 1960 começou no Brasil o sucateamento das ferrovias, acompanhando o que ocorria nos Estados Unidos como resultado da vitória do lobby da indústria automobilística. Um país com tal extensão e sem ferrovias, uma insensatez total. Na Europa o lobby não colou. Aqui, havia muitas empresas ferroviárias, inclusive regionais. Para que se tenha uma idéia do que foi o trem no Brasil, veja que na Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, as tropas saíram de Santo Angelo, na fronteira gaúcha com Argentina, e foram até Recife, tudo sobre trilhos. 

Fizeram também o sucateamento da navegação de cabotagem. Para quem não sabe, cabotagem é a navegação de navios na costa doméstica. Tivemos duas grandes companhias de navegação, a Costeira e a Lloyd, que usavam embarcações importadas e também construídas no próprio Brasil, no estaleiro do empresário Henrique Lage, no Rio. Na minha infância, nos anos 1950, viajei com a família duas vezes pela Costeira. A navegação cobria de Porto Alegre a Manaus. O Lloyd fazia também rotas internacionais. Os navios eram mistos, com carga e passageiros. Geralmente deixavam uma carga e pegavam outra, ao longo do trajeto, que durava um mês, ou até mais. O que sobrou? Praticamente nada, por falta sempre de planejamento e previsão. Um país com um litoral continental e uma rede fluvial fantástica, sem dispor de navios. Não é absurdo?

Sem trens e sem navios, foi tudo para os caminhões. Consumindo petróleo, poluindo, congestionando, causando acidentes, danificando estradas pelo sobrepeso, etc. Muito estresse. Além, claro, do menor volume transportado e frete mais caro. Das indústrias ferroviária e naval, o que não fechou foi reciclado e virou autopeças. Dois exemplos, para não alongar: Mafersa e Krupp.

Há também um componente político muito importante nessa opção para o transporte sobre pneus: ferroviários e estivadores eram categorias muito politizadas, com sindicatos fortes e controlados pela esquerda. A economia nacional transitava literalmente pelas mãos deles. Isso, para o capital, era um grande risco, por causa das greves. Convém não esquecer que a transição do transporte ocorre no auge da Guerra Fria, com a polarização capitalismo versus comunismo. A única forma de livrar-se daquelas categorias, impossíveis de controlar e de cooptar, era o sucateamento.

Neste país não existe futuro. Todas as soluções são paliativas e emergenciais, tentando corrigir os problemas quando eles explodem no limite do tolerável. É a pior forma de administrar.

O caos urbano, em todos os setores, chegou a um ponto em que o novo administrador não tem mais como pensar no futuro. Ele mal dá conta dos velhos problemas.

Mas não precisavam exagerar, repetindo erros. O Rodoanel é uma agressão ao meio-ambiente. Isso foi polêmico, mas venceu a visão obreirista. Claro, preservação não sustenta empreiteira, nem rende superfaturamento. Não é assim, Maluf? Essa obra, provocando o povoamento desordenado do entorno, vai acabar com tudo, aguardem. Porque sempre prevalece a visão de que a locomoção é a prioridade. Beber água, e respirar, não.  



Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento)  

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