Maturidade, em política, para o vencedor, é respeitar o perdedor. E, para o perdedor, assimilar a derrota como regra democrática, onde sempre prevalece a vontade da maioria. Na democracia, o vencedor de hoje poderá ser o derrotado de amanhã, numa alternância que é salutar. É isso que a turma das redes sociais precisa avaliar para lidar sem traumas com a política.
Tive um prematuro interesse pela política e pela História desde a infância, nos anos 1950. Nunca tinha visto uma eleição como esta, decidida por margem tão estreita e com o Brasil dividido em dois mapas tão claros. Mas não se pode dizer que foi a mais suja. As outras, antes, foram iguais. Em outros países, desenvolvidos ou não, não é diferente.
Getúlio Vargas, ex-ditador, voltou ao governo em 1951 por inequívoca maioria. Juscelino se elegeu com votação minoritária porque a lei permitia isso, não havia segundo turno. Foi o pretexto da tentativa do golpe da direita, coibido pelo legalista general Teixeira Lott no 11 de novembro de 1955. Jânio Quadros, pela direitista UDN com uma curiosa aliança não oficial com os comunistas, chegou ao Planalto em 1961 surfando sobre um mar de votos, o que lhe conferia amplo respaldo. Poderia ter arrumado o país, mas preferiu tentar um golpe, com a renúncia, e acabou num exílio voluntário. João Goulart, seu vice, assumiu seu lugar depois de uma crise político-militar, quase guerra civil, com o Rio Grande do Sul mobilizado em armas, sob a liderança de Leonel Brizola e com total apoio do III Exército, comandado pelo general Machado Lopes. A crise foi contornada com a criação de um arremedo de parlamentarismo, depois recusado em plebiscito por 90% dos eleitores. Isso legitimou Goulart, derrubado em 1964 por uma direita que vinha tentando o golpe desde 1954, com a morte de Vargas.
Na ditadura não tivemos eleições e muito menos respeito aos vencidos. Os 21 anos que durou se encaixam em outra análise. Sua função foi despolitizar o país e se inseria numa estratégia continental de geopolítica coordenada pelos Estados Unidos. Foi um derivado da Guerra Fria. Cuba e Berlim dividida eram os dois pólos de tensão. Isso engessava a economia mundial. Com o fim da Guerra Fria os mercados se abriram e se expandiram, era a globalização, derrubando também as ditaduras que impediam esse processo. O maior exemplo, no Brasil, foi a Lei da Informática, que proibia a importação dos equipamentos e agravou nossos gargalos tecnológicos.
O resultado desta eleição nos deu uma visão do Brasil atual que não estava tão clara. O chamado pacto federativo precisa ser reconstruído e o papel dos governadores será fundamental. Não é para menos que a palavra que Dilma mais usou da vitória para cá seja diálogo. Ela precisa de estabilidade institucional para governar. Vai ter que conversar com a sociedade e com o Congresso para costurar a conciliação. Eu não apostaria numa caminhada por um caminho sereno. Não faltarão interessados em sabotar esse esforço. Além disso, diálogo não é reunir elegantes para tomar chá das cinco. Tudo envolve grandes interesses divergentes. Diálogo implica em enfrentar o contraditório num cenário sempre difícil. Mas o que mais chamou minha atenção foi ouvir Dilma dizer três vezes que irá conversar com empresários, sem citar os sindicalistas. O esquecimento não me soa involuntário. Trai a origem do PT e corre o risco de ser interpretado como fraqueza. Pode ser uma sinalização de nova inclinação do governo à direita. Esse filme é antigo, já protagonizado por Vargas e Goulart, que nem por isso se livraram dos golpes. Mas não se poderá dizer que tenham abdicado de sua base trabalhista.
Aécio teve uma grande votação, mas isso é sazonal e diferente de dispor de uma base eleitoral sólida e constante. Além de que a briga interna entre os caciques do PSDB é uma velha conhecida dos bem informados. Não é que eles não se gostem; eles se odeiam! Óbvio, todos têm seus grupos e querem a presidência. A derrota em Minas pesou agora e voltará a pesar na futura convenção do partido. No PT não é diferente, mas a incontestável hegemonia de Lula atenua a intensidade do conflito interno. A prova é que Aécio amargou a lanterna por bom tempo, no primeiro turno, a ponto de se pensar que já estava fora da disputa. Não é o que aconteceria com uma liderança real e estruturada com seus quadros. Mesma situação de Marina. Tivesse ela um eleitorado consistente, não seriam os ataques do PT, e também do Aécio no primeiro turno (favor não esquecer), que iriam desmontar sua trajetória. Dilma, ao contrário, teve sempre sua base bem definida, com o único problema do espaço para crescer entre os indecisos e entre aqueles que oscilavam entre ela e Marina.
Quem ameaçou muito de perto a vitória de Dilma não foi Aécio e sim o voto anti-PT. Esse é real e não uma montagem partidária. Voto anti-PT que se fragmentava, passando por Eduardo, depois Marina e Aécio, até se concentar maciçamente neste último nome, inclusive com eleitores da esquerda, ainda que minoritários. Uma eleição realmente inusitada, em que até em acampamento de sem terra apareceram bandeiras de Dilma e também de Aécio. Não parece maluquice? Até um poste teria atraído esses eleitores anti-PT. Não havia argumento capaz de fazê-los mudar, como também não havia entre petistas de carteirinha. Logo, numa eleição tão polarizada fica evidente que a decisão coube em parte aos indecisos, que não eram poucos. Para estes, os temas complexos e as trocas de acusações não interessam: eles querem saber como ficam suas vidas e cotidiano já amanhã, com as contas do aluguel e do supermercado.
Aécio colou bem sua imagem ao seu eleitor alvo, branco, com dentes e boa conta bancária. Mas acima de tudo anti-PT. Com o mesmo discurso qualquer candidato teria a mesma votação. Portanto, grande parte desses votos não pertencem a Aécio e sim a um inegável sentimento que dividiu os brasileiros. Dilma citou muito os negros e pobres. De fato, as duas estratégias de marketing deram certo. Não vi um único negro quando passei pelo vão do Masp, na Avenida Paulista, na véspera da eleição, onde militantes do Aécio agitavam suas bandeiras azuis. Ali eram poucos os carros com bandeiras vermelhas, pro-Dilma. Ao contrário da primeira eleição do Lula, quando congestionaram com bandeiras vermelhas a Avenida Paulista. Fiquei pensando: onde foi parar aquela frota? Azulou? Agora era menor, sem os carros de luxo da outra vez, da turma dos Jardins, e tinha ido para a praça Roosevelt, sem o mesmo simbolismo da Paulista. Pareciam um exército dentro de um quartel, sem partir para o combate.
O que hoje divide o Brasil é o anti-petismo. Repleto de críticas e sem propostas para uma alternativa de gestão. O PT paga por seus erros e também acertos. O principal erro foi não banir com rigor a corrupção, e era o que mais dele se esperava na primeira eleição de Lula. Os acordos com corruptos notórios da direita queimaram o filme do PT, até então imaculado. E o principal acerto foram os avanços sociais, inegáveis, como prova a esmagadora vitória de Dilma no Nordeste, historicamente nossa região mais pobre. Esqueça estatísticas e converse com as pessoas simples, do povo. Vá ao Nordeste, como eu fui. Para quem não tinha nada, ou muito pouco, avançar um degrau na escala social tem um valor imenso. Eles não colocariam isso em risco, e estão certos, porque política serve para conquistas. Para um enorme contingente das classes média e rica qualquer avanço social nas camadas abaixo será sempre insuportável. Experimentem fazer uma pesquisa de opinião nesses segmentos sobre o Bolsa Família e depois me digam se não tenho razão. Esse papo de campanha de que “todos apóiam o Bolsa Familia” foi uma grande mentira, meramente em busca de votos. Expressões tipo “bolsa esmola”, muito ouvidas, revelam a verdade.
Com ou sem anti-petismo, agora Aécio está associado a uma votação muito grande, que será crucial na disputa interna do PSDB para 2018. O racha no partido será inevitável, porque tanto Serra como Alckmin são eternos pré-candidatos. Serra foi bem votado para o Senado e se engana quem achar que está morto para o maior sonho da sua vida.
Quanto ao PT, no discurso da vitória Dilma já lançou Lula. Michel Temer, ao lado, sorriu amarelo. O PMDB não faz nada sem negociar. A página está virada e agora recomeça tudo do zero. Dilma tem que reunificar o país, com benesses ao Sul e manutenção no Nordeste. É tarefa para Hércules. A oposição tem respaldo numa grande votação, e se cumprir seu papel como deve vai cobrar muito. Se for para o bem do Brasil, que cobre. Quem votou em Dilma, mais ainda. Isso até pode ajudar a presidente a governar. Ou será que a oposição achará melhor fingir que não vê, para cobrar tudo no final?
* Milton Saldanha, 68 anos, gaúcho, é jornalista desde os 17 anos. Trabalhou na imprensa de Santa Maria (RS) e Porto Alegre. Vive em São Paulo há mais de 40 anos. Passou por muitos empregos, entre eles Rede Globo, Estadão, TV Manchete, Diário do Grande ABC, Jovem Pan, revista Motor3, Ford Brasil, IPT, Conselho de Economia e vários outros, inclusive na Ultima Hora. Ao se aposentar, criou o jornal Dance, já com 19 anos. É autor dos livros “As 3 Vidas de Jaime Arôxa” (Editora Senac Rio); “Maria Antonietta, a Dama da Gafieira” (Phorte Editora) e “O País Transtornado” (Editora Movimento, RS) onde conta 60 anos da recente História brasileira. Participou da antologia de escritores gaúchos “Porto Alegre, Ontem e Hoje” (Editora Movimento)

Um comentário:
Milton, gosto de ver a forma como você mantém uma visão justa para defender o lado no qual acredita! O Brasil precisa desta maturidade!!!
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