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| Foto: Acervo Luiz Bhering |
O jornalista e cronista carioca Millôr Fernandes, famoso, autor de frases lapidares, escreveu certa ocasião: “Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim”. Essa ironia fina revela uma verdade desconfortável: muitas vezes somos exigentes com os outros e complacentes conosco mesmos.
Quando essa frase nos transporta para a reflexão do nosso dia a dia, percebemos quantas situações desagradáveis poderiam ser evitadas se fôssemos mais cuidadosos e coerentes em todas as áreas da nossa atuação — nas comunidades, nos clubes, no trabalho, na família e até na vida de fé. Não raras vezes, cobramos atitudes que nós mesmos não praticamos; pedimos respeito, mas agimos com dureza; exigimos pontualidade, mas chegamos atrasados; falamos de amor, mas cultivamos a indiferença.
Práticas políticas, nepotismo e falta de ética
As boas novas do Evangelho - proclamadas por Cristo, vividas por seus discípulos e anunciadas pelos apóstolos – infelizmente estão sendo deturpadas.
Pastores, pregadores, e “autoridades eclesiásticas”, têm utilizado práticas políticas pouco republicanas, estratégias de poder, jogos de influência, nepotismo e atitudes que pouco dialogam com a ética ensinada e praticada pelo próprio Cristo. Em nome da “obra de Deus”, institucionalizam dinastias familiares, perpetuam mandatos, distribuem cargos como moedas de troca e se esquecem de que o Reino de Deus não é um palco para ascensão pessoal, mas um campo de serviço, humildade e verdade.
Os vendilhões do templo, denunciados por Jesus, hoje são mais sofisticados. Vestem ternos sofisticados, são titulados, pós-graduados, têm discursos elaborados — mas continuam vendilhões. O importante é ter altos salários, carro do ano, bons apartamentos: tudo às expensas. Trocaram as bancas de pombas e moedas, por estratégias de influência e marketing religioso, mas o espírito da comercialização permanece. O sagrado, que deveria ser espaço de cura, simplicidade e misericórdia, vai sendo transformado em mercado, palco, clube ou empresa.
Recentemente, o titular de uma das maiores igrejas batistas da capital de São Paulo, recém chegado do Rio, resolveu botar para fora um dos maiores regentes de música, com mestrado nos EUA que, há 40 anos conduzia, com lisura e muita dedicação, o Ministério de Música da Igreja. Não se levou em conta a idade, de 70 anos, a saúde. O motivo alegado? Foi insubordinação. Na verdade, “puxaram o tapete”. Bem antes, a trama foi urdida com uma parte da diretoria; depois, com pouco mais de vinte pessoas, representando perto de seiscentos membros, foi realizada uma votação de mudança de estatutos, mais política que religiosa.
Tudo foi feito, é claro, em nome de “uma visão espiritual”, mais alinhada, com novos preceitos e objetivos, não muito bem claros. Nada foi pensando nas viúvas, nos pobres, nos necessitados. Mas numa preocupação com a modernidade e juventude, como se essas premissas excluíssem o cuidado e o amor ao próximo.
No entanto, a espiritualidade nos convida a algo mais profundo: a unidade entre palavra e testemunho. A fé não se sustenta apenas no discurso ou sermão bonito, elaborado até com a Inteligência Artificial mas no exemplo silencioso. O verdadeiro ensinamento nasce quando o que dizemos é confirmado pelo que fazemos. Liderar, orientar ou educar não é impor ordens, mas inspirar caminhos.
Jesus, em sua pedagogia divina, ensinou sobretudo pelo exemplo: serviu, perdoou, acolheu e amou até o fim. Ele nos lembra que a autoridade autêntica brota do serviço e que a coerência é uma das formas mais belas de evangelização.
É tempo de ilustres “autoridades eclesiásticas” reverem suas posturas. Antes de dizer “faça”, perguntem a si mesmo: eu faço? Antes de cobrar, aprendam a viver. Só assim, será possível construir relações mais justas, comunidades e igrejas mais fraternas em um mundo onde as palavras não contradigam as ações, mas caminhem juntas, iluminadas pela fé, pela humildade e pelo amor.
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| * Linoel Dias é jornalista e colunista do “Coisas de Agora” |


2 comentários:
Maravilhoso. Perfeita a sua visão. Você foi Tramontina. Parabéns!!!! Foi bem assim. Tem muito que aprender com Jesus onde tendo o pastor 100 ovelhas e uma se perdeu, ele foi atrás daquela desgarrada. Vc fez isso??? Nem eu. Parabéns, Lionel. Texto esplêndido.
Parabéns Linoel Dias, como sempre exímio escritor, exatamente isso é o que temos visto, porém sabemos, que o Senhor Deus é o único Rei do Universo e não deixará que nada nem ninguém, saia do Seu controle.
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