sexta-feira, 24 de julho de 2026

EMBALAGENS BRASILEIRAS: TORMENTO. Por Marli Gonçalves*

Nunca entendi porque são tão ruins as embalagens de tantos e certos produtos, não funcionam, são difíceis de serem abertas, lidos os seus rótulos, conservadas. Você já deve ter proferido muitos palavrões ao tentar abrir algumas delas.

Faca, facão, faquinha – que precisa ter de todos os tamanhos. Dentes fortes. Canivete, tesoura afiada, luvas, vapor – e calma, muita calma. Calmíssima. Concentração. Criatividade. Racionalidade e muita força de vontade para não desistir. Aliás, não desistir, não se machucar, não continuar com fome e, muito menos, você, mulher, evitar ir atrás de algum “homem” ou chamar o porteiro. A autossuficiência no caso de algumas embalagens precisa desse armamento. Ah, acrescente, se possível, uma boa lupa ou seu habitual óculos de grau. Admito que um bom treinamento de força pode ser útil para enfrentar o problema.

Eu poderia estar aqui falando do tarifaço, do caos habitual do transporte público, daquele candidato da familícia que só escorrega, do horror dos crimes, do absurdo do bebê que morreu entalado numa grade da creche sem ninguém ver, dos bêbados assassinos no trânsito. Do frio, do calor, do El Niño. Assuntos não faltam, bem sabemos. Mas as embalagens tomaram a frente. Outro dia conversando com uma amiga que está com sérios problemas de visão, o tema veio, lembrando de quantas delas, embalagens, têm rótulos ilegíveis, tipo fontes diminutas brancas no amarelo. Inclusive – aproveitando já que é reclamação – as plaquinhas nos pontos de venda que, para a gente saber o preço precisa sambar ou rezar, estão a cada dia menores e mais confusas. Você acha que vai pagar uma coisa no caixa, mas era outra: precisava comprar três produtos da mesma marca, sabor, escambau, ou fazer parte - registrada, app, cartão - de algum clube de descontos, sem piscina.

Nem sempre são embalagens de alimentos. Já tentou abrir o invólucro do enxaguante bucal Listerine? Vamos lá. É uma trava. Você olha o desenho – até parece fácil. Aperte para baixo, pressione, rode. Boa Sorte! Pior é que para conservar, acredite, não pode deixar a tampinha já meio soltinha para facilitar. Se esquecer, baubau.

Mas tem muitas embalagens dignas de nota. Zero, claro. Os sachês, os enlouquecedores sachês, aqueles de ketchup, mostarda, maionese. Corte aqui, abra aqui. Abracadabra! Ficou bonita sua roupa manchada, colorida? Não me diga que quebrou o dente tentando ou desistiu de usar no seu sanduíche. Sei como é que é.

Biscoitos e fitinhas vermelhas...Quer um conselho? Vai direto na faca. O mesmo com pacotes de salgados e outros com aquele vinco atrás que requer um certo capricho no momento de juntar e abrir para, digamos, o conteúdo não sair voando.

Enfim, imagino que tenha muitos outros exemplos, e já esteja listando enquanto lê. Torço para que não tenha quebrado a unha, se cortado ou torcido o braço tentando abrir algum vidro, pote, ou alguma lata de conserva com aquele ferrinho; torço também para que o seu abridor de latas esteja bem afiado e você tenha bastante esmero em dar a volta completa.

De vez em quando precisamos falar sobre isso, talvez tema para as eleições? Por que as nossas embalagens são tão ruins?

* Marli Gonçalves. Jornalista, cronista, consultora de comunicação, 
editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, 
Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). 
Vive em São Paulo, Capital.  
marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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