TROLLER FOI MAIS
LONGE
Sempre se costuma perguntar a razão de o Brasil não ter
nenhuma marca de automóvel, utilitário ou comercial leve de origem genuinamente
nacional. Afinal, como quarto maior mercado interno no mundo (e caminhando para
terceiro, deve passar o Japão, mas pode voltar à quarta posição se a Índia
deslanchar) as condições estariam dadas. Tentativas foram feitas, mas mesmo que
vingassem seria bastante difícil sobreviver.
Indústria automobilística é bem mais complexa do que parece.
Está muita sujeita a altos e baixos da economia e a regulamentações severas de
segurança e emissões, além dos riscos industriais da produção seriada, entre
eles o dos recalls. Por isso, várias marcas sucumbiram ou foram anexadas. Até
hoje o cenário mundial não aparenta estar consolidado (ver abaixo em Roda
Viva).
Nesse cenário a marca nacional que chegou mais longe foi
justamente a que é sediada mais distante dos grandes centros consumidores, a
Troller. Fundada em 1995, em Horizonte, a 40 km de Fortaleza (CE), pelo engenheiro
cearense Rogério Farias, se especializou em utilitários parrudos para o
fora-de-estrada. Produziram-se em torno de 10.000 unidades em 19 anos. Desde
2007 a marca se desnacionalizou – pertence à Ford –, porém sobrevive. O
interesse se deu pelos incentivos fiscais criados para apoiar a
descentralização da indústria em direção ao nordeste e centro-oeste.
Incentivos, aliás, há em todos os países. Só recentemente
veio à tona o volume fabuloso de recursos que estados menos desenvolvidos nos
EUA concederam às marcas japonesas, “convencidas” a se instalar no país depois
de enfrentarem cotas de importação. O fato é que, por décadas seguidas, os
estímulos retornam em valores muito superiores aos doados. No ano que vem se
encerram as vantagens recebidas pela Ford (inclusive na baiana Camaçari),
enquanto a Troller inicia agora outra fase com o novo T4 lançado semana
passada.
Investiram-se R$ 215 milhões para aumentar a produção de
1.200 unidades/ano para 3.000/ano em apenas um turno com 400 empregos diretos.
O processo produtivo em compósito de fibra de vidro para a carroceria é mais
moderno e inclui seis robôs. O T4 foi totalmente reformulado, inclusive no
estilo, que pode ser discutível, mas sem abrir mão de forma e função, hoje tão
maltratadas em pseudoaventureiros que contaminam as ruas e estradas por puro
modismo.
O novo Troller tem entre-eixos aumentado (agora 2,58 m ), o que melhorou
espaço para as pernas atrás, embora o acesso continue difícil como se espera de
um veículo alto e de duas portas. O ângulo de saída passou para 51°, ou 14° a
mais que o modelo anterior. Agora conta com motor Diesel 5-cilindros de 200
cv/48 kgf.m e câmbio manual de seis marchas, formando um conjunto mais
silencioso e de alto desempenho com tração 4x4 temporária, reduzida e
diferencial traseiro autobloqueante.
Preço é puxado – R$ 110.990; anterior R$ 97.000 –, porém seu
público-alvo já tem dois outros veículos na garagem e concorrente direto, o
americano Jeep Wrangler, não sai por menos de R$ 155.000 (gasolina). O preço
inclui ar-condicionado digital bizona, computador de bordo, sistema de som (CD
Player MP3), dois tetos solares fixos, rodas de aro 17 pol, proteções de partes
inferiores e freios ABS específico para fora de estrada, entre outros recursos.
Há mais de 130 itens de acessórios homologados.
Regulamentação do Contran dispensa instalação de airbags,
mas uma futura versão de visual “civil” vai dispor das bolsas de ar,
desativáveis por chave em caso de uso severo em baixas velocidades.
RODA VIVA
RUMORES sobre possível
aquisição do grupo Fiat Chrysler pelo Grupo VW repercutiram no mundo, apesar
dos esperados desmentidos. Conversas sempre há, no caso alimentadas pelo
“desânimo” de famílias europeias com o negócio de automóveis, que já atingiu a
Peugeot Citroën e alegadamente também a Fiat. No entanto, pode haver mais
contras do que prós, segundo a maioria dos analistas.
CURIOSAMENTE, um
dos obstáculos estaria no Brasil, pois enfrentaria óbices regulatórios de defesa
da livre concorrência, situação inexistente nos tempos da Autolatina (Ford e VW
fundiram suas filiais aqui em 1987). Há quem desconfie de que apenas a Alfa
Romeo seria vendida à VW, pois a terceira tentativa de relançar a antiga marca
de prestígio italiana não se mostraria viável e até atrapalharia o grupo
ítalo-americano.
JAPÃO decidiu
encerrar os incentivos específicos para seus microcarros urbanos – chamados lá
de kei jidosha ou carros básicos, que
usam motores de apenas 660 cm³, a maioria com turbo – por motivos fiscais e de distorções
de mercado. Espera-se, em razão de preço, que se vendam menos veículos no país.
Dessa forma, o Brasil chegaria à terceira posição no ranking mundial mais cedo.
PESQUISA feita
nos EUA aponta que o advento da internet e as facilidades de pesquisas de
modelos e preços levaram os compradores a visitar menos concessionárias antes
de fechar o negócio. Antes, até seis lojas eram percorridas e agora, no máximo,
duas.
* Fernando Calmon é jornalista especializado desde 1967, engenheiro, palestrante e consultor em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. Sua coluna Alta Roda começou em 1999. É publicada no WebMotors, na Gazeta Mercantil e também em uma rede nacional de 52 jornais, sites e revistas. É, ainda, correspondente para a América do Sul do site Just-auto (Inglaterra). Escreva para Fernando Calmon: fernando@calmon.jor.br ou o acompanhe pelo Twitter: www.twitter.com/fernandocalmon.

Nenhum comentário:
Postar um comentário