O FUTURO DA EDUCAÇÃO
Em seus "Ensaios", Montaigne
há cinco séculos criticava a fórmula de ensino então adotada. E ela quase não
mudou. Aulas prelecionais, alguém falando para dezenas de educandos distintos.
Cada qual com um temperamento, uma família, hábitos e idiossincrasias
diferentes. Depois estranha-se quando apenas alguns dentre eles deem certo.
O que estamos fazendo com a educação?
Transmitindo dados, fazendo com que a criança decore e treine memorização. Sem
a menor noção de uso inteligente dessas informações em sua vida. Sem a
preocupação de fazê-la feliz.
Por isso é que a educação quase sempre
deseduca. No sentido de tornar-se maçante, desinteressante, chata, insossa. O
indivíduo não é respeitado. Procura-se moldá-lo de acordo com um padrão que já
não vigora.
Quem já não notou que crianças muito
bem dotadas não se acostumam com o regime escolar? Hiperativas, irrequietas,
mereceriam atenção especial, exatamente porque são potencialmente ilimitadas.
Podem atingir os píncaros de um desenvolvimento que a escola não sabe
administrar. Ficam e terminam seus cursos os mais limitados, os que não se
indignam, os que se curvam e, lamentavelmente, os medíocres.
É óbvio que há exceções. Mas uma
educação que priorizasse as individualidades daria muito mais certo. Não seria
preciso a reunião de especialistas do mundo inteiro para concluir que o ensino
do futuro será uma espécie de monitoramento do jovem, com os professores como
tutores e não como os "donos da verdade". É preciso incutir na
criança a vontade de ler, de pesquisar, de descobrir ela própria a maravilha do
universo. Não doutriná-la e deixá-la despersonalizada, a repetir bobagens que,
até o momento, são consideradas como integrantes do processo educacional.
O pior é que o modelo de transmissão do
conhecimento por alguém considerado detentor exclusivo do acervo de verdades já
detectado pela ciência vai sendo replicado nos demais graus da escolarização
convencional. O trágico ocorre nos Cursos de Direito, que são mais numerosos no
Brasil do que a soma de todos eles existentes no restante do mundo. De que
adianta espalhar bacharéis em ciências jurídicas por este País, se a sensação
de impunidade e injustiça é o que mais habita as consciências lúcidas ainda
suscetíveis de serem tomadas por indignação?
* José Renato Nalini é desembargador, preside o Tribunal de Justiça de São Paulo e é integrante da Academia Paulista de Letras. Visite o blog: renatonalini.wordpress.com.
* José Renato Nalini é desembargador, preside o Tribunal de Justiça de São Paulo e é integrante da Academia Paulista de Letras. Visite o blog: renatonalini.wordpress.com.

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