sábado, 1 de julho de 2017

EDUCAÇÃO.
Por José Renato Nalini*

Todos mentem

Ainda sem tradução para o português, esse o título principal do livro de Seth Stephens Davidowitz, cientista de dados publicado pela editoraDey Street Books. O título completo é: "Everybody Lies - Big Data, New Data and what the internet can tell us about who we really are", algo como: "Todos mentem: Big Data, New Data e o que a internet pode nos contar sobre quem nós realmente somos".

A tese de Davidowitz é a de que o comportamento de bilhões de usuários anônimos da internet, que formam o chamado "Big Data", o grande acervo de dados acumulados e que nós mesmos fornecemos, quando fazemos pesquisa no Google, vai revolucionar as ciências sociais.

Além de surpreender pelo teor e intensidade das pesquisas no campo sexual e político, as conclusões de Davidowitz mostram que anúncios na televisão levam o consumidor a compras compulsivas. Algo que já se conhecia, mas que resta mais claro. Também evidencia que pais discriminam os próprios filhos por gênero, escondem seus complexos, são teatrais quando procuram desenhar uma imagem que não corresponde à crua realidade. Isso as pesquisas tradicionais não mostram, porque não se é sincero quando inquirido. Ninguém admite algo que possa envergonhá-lo. O natural é mostrar-se coerente com a imagem que cada um faz de si mesmo. Não com a imagem real. Aquilo que Oscar Wilde quis provar com "o retrato de Dorian Gray".

Talvez seja exagero concluir que o Big Data fará das ciências sociais novas ciências exatas. Já existe certa indefinição quanto à categoria "exata", no momento em que a física quântica trouxe dúvidas quanto à certeza das chamadas "ciências duras". Mas o autor vai além: afirma ele que o próximo Michel Foucault, filósofo francês muito cultuado, será um cientista de dados. E que o próximo Karl Marx, tão citado e tão pouco lido e seguido, será outro cientista de dados.

Excluída a pretensão a explicar o mundo a partir do Big Data, é óbvio que meditar sobre a influência do mundo digital na formação de aparentes consensos, quase sempre artificiais e momentâneos, é importante para quem ousa prever o futuro ou tenta sobreviver no caos do pensamento universal em que aparentemente nos encontramos.

Tentar nos servir da web para construir consensos, para disseminar a tolerância e o respeito à pessoa humana, por mais diferente possa ela ser ou o que ela defende, em permanente colisão com o que pensamos, é algo que deveria motivar as pessoas de boa vontade.

O mundo precisa de compreensão, fraternidade, compaixão e misericórdia. Mais do que teorizar e tentar destruir as barreiras que os pensadores edificaram entre os diversos ramos de explicações sobre a vida, sejam ciências ou não. Começar a parar de mentir também seria muito bem vindo para quem quer o mundo de paz e de verdade.  








José Renato Nalini é secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação. 
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